
Em 2023 a revista Berggasse 19 elegeu o tema “Humanidades possíveis” como estímulo e inspiração para a escrita psicanalítica. Seguindo com o projeto editorial, lembramos aos autores interessados que já estamos aceitando submissões para o número 2, agora voltados para a intimidade da relação analítica com o tema “Humanidades possíveis na sala de análise”. O prazo final para submissões é 12/09/2023.
No primeiro número deste ano, consideramos as relações humanas, do eu consigo mesmo, com o outro, com o planeta, nas tensões sociais, raciais e econômicas, e na ameaça constante de destruição pelas diferentes formas de guerra. Como psicanalistas, sabemos que esse tecido social humano, não humano e por vezes desumano se expressa nas dinâmicas mentais intrapsíquicas e compõem a mente também em sua individualidade, ganhando particularidades no mito pessoal de cada um.
Freud já nos apresentava tal realidade em “Psicologia de grupo e análise do ego”,[1]texto em que propõe que “num sentido ampliado a psicologia individual é também psicologia social”. Mas o espaço privilegiado de acesso aos movimentos conscientes↔inconscientes expressivos de tais dinâmicas situa-se justamente na interioridade do eu, “alojada” no externo da sala de análise. Espaço interno-externo, compartilhado por analista-analisando, cocriado pela dupla, único, irreproduzível, onde se constitui e reconstitui a história humana de cada um e ao mesmo tempo se cria e recria a possibilidade de sustentar humanidades.
Em 1895, no seu artigo “Projeto para uma psicologia científica”,[2]Freud nos propôs o Complexo do Semelhante, conceito praticamente esquecido ou talvez absorvido pelo desenvolvimento teórico posterior. Ignácio Paim Filho, Joyce Goldstein e Sandra Wolffenbüttel, em artigo publicado na Berggasse 19 em 2020,[3] revisitam tal conceito e, num diálogo com Freud, afirmam que o estado inicial de desamparo da “cria humana” a coloca essencialmente dependente de ajuda externa, de um outro – outro experiente e vivido o suficiente para estar atento ao seu desamparo. O caos pulsional inicial marcado pelo desamparo e pela dependência do externo ganha significado pela presença do outro/semelhante e torna-se matriz da visceral relação do sujeito consigo, com o outro, com o mundo. Citando os autores:
“Partimos do princípio de que a relação com o semelhante é o que nos torna humanos, consistindo no elemento capaz de fundar e manter viva a nossa existência e a capacidade para produzir encontros” (p. 33).
O outro capaz de estar atento, ter consideração pelo desamparo e transformá-lo é também revisitado por Bion quando nos propõe a função alfa materna como meio de tornar toleráveis as vivências em princípio intoleráveis para o bebê. A partir desse trânsito forma-se a matriz para o desenvolvimento da capacidade humana para pensar através da rêverie materna. Para Bion, a capacidade para pensar desenvolve-se justamente a partir do vínculo com o outro, o outro semelhante e ao mesmo tempo diferente que ampara e ao mesmo tempo (trans)forma o sujeito.
A constituição do humano a partir do contato com o humano vai se delineando na teoria e prática psicanalítica. Em Winnicott o conceito de holding trata mais uma vez da sustentação do ser diante de sua impossibilidade de sustentar-se sozinho, novamente trata da marca humana amparo-desamparo, dependência-autonomia, das possibilidades de sobrevivência e formas de sua existência.
A identificação projetiva, conceito proposto por Klein e ampliado por Bion, nos apresenta a forma primitiva de comunicação, inicial, embrionária, própria do tempo do desamparo do ser humano. Nesse tempo em que o indivíduo não se sustenta por si mesmo, não tolera suas próprias vivências, estas precisam encontrar um depositário, forma mais elementar de se comunicar sofrimento.
Essas são todas referências de diferentes sistemas de pensamento em psicanálise, que não se contrapõem, opõem ou complementam, mas sim apresentam diferentes dimensões da experiência humana pelo olhar da psicanálise. Nas palavras de Ogden, “juntos eles proporcionam uma profundidade ‘estereoscópica’ à compreensão das experiências emocionais que ocorrem no setting analítico” (p. 137).[4] Nesse artigo, intitulado “Sobre sustentar e conter, ser e sonhar”, Ogden restringe-se a articular as ideias de Winnicott e Bion. Aqui, tomamos a liberdade de ampliar as referências trazendo Freud e Klein para o diálogo, que desejamos seja inspirador/gerador de ideias e reflexões sobre as humanidades possíveis na sala de análise.
O encontro na sala de análise, em toda sua especificidade, realmente parece ser o lugar privilegiado para a reconstituição do encontro com o desamparo da mente primitiva que necessita ser vista, reconhecida, sustentada, amparada, comunicada, contida, sonhada e, quem sabe, (trans)formada através da presença humana do outro que é semelhante e diferente. O que irá emergir do encontro? O que irá emergir do encontro humanamente possível entre analista e analisando a cada sessão, em cada sala de análise?
Aguardamos as contribuições dos colegas que puderem aprofundar e enriquecer nossas reflexões sobre a prática psicanalítica, suas vicissitudes e realizações. Envie seu texto para o e-mail berggasse@sbprp.com.br, para acessar as normas para publicação, acesse https://berggasse19.emnuvens.com.br ou clique aqui.
Conselho Editorial Berggasse 19
[1] Freud, S. (1996). Psicologia de grupo e análise do ego. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 18. Além do princípio do prazer, Psicologia de grupo e outros trabalhos (1920-1922) (J. Salomão, Trad.; pp. 77-154). Imago. (Trabalho original publicado em 1921)
[2] Freud, S. (1996). Projeto para uma psicologia científica. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 1. Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos (1886-1889) (J. Salomão, Trad.; pp. 333-346). Imago. (Trabalho original publicado em 1895)
[3] Paim, I., Filho, Goldstein, J., & Wolffenbüttel, S. (2020). Do desamparo ao Complexo do Semelhante: uma interlocução com as origens. Berggasse 19, 10(2), 19-40.
[4] Ogden, T. (2010). Sobre sustentar e conter, ser e sonhar. In Essa arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos (D. Bueno, Trad., pp. 121-138). Artmed.
Deixe um comentário