O filme da Barbie já entrou para a história do cinema, lotando as salas de cinemas nas últimas semanas, colocando mais uma vez em pauta a questão do feminino e do masculino e suas vicissitudes. O filme conta a história de um mundo de fantasia, a Barbilândia, onde as mulheres estariam no centro, buscando autossuficiência. Nesse mundo os homens são figuras secundárias, todas as figuras de destaque são mulheres. Observa-se no filme uma dicotomia, homens de um lado, mulheres do outro. O enredo movimenta estas questões e nos leva a continuar pensando.

Inspirados por estas ideias fomos presenteados pela psicanalista Raquel Siminati com texto “A Mulher e seus Mistérios” em que ela, à luz da teoria psicanalítica, nos traz uma interessante discussão sobre feminino, masculino, machismo, inveja, rivalidade, ataques aos vínculos, fertilidade mental, capacidade de pensar e de abordar o mistério que envolve as experiências entre o feminino e o masculino.


“… sendo mulher eu escancaro os tabus, mas não revelo os mistérios…” (Rita Lee) 

Escancarar tabus é talvez, uma coragem que podemos encontrar em algumas mulheres, começando pela própria Eva que encarou o grande tabu quando pensou em algo que contrariava uma ordem do deus todo poderoso. Acabou ficando culpada pela expulsão do paraíso, punição que receberam por terem comido o fruto do conhecimento. As críticas contra essa mulher, a transformaram numa ‘serpente traidora’, que teria seduzido o frágil Adão, conduzindo-o a transgredir a regra. Eva pensou em algo que não tinha sido falado, mas por que teria sido a mulher, que tivera a ideia nova, e não o homem?  
  
Vivemos em uma sociedade preconceituosa, sendo a violência também escancarada e cruelmente banalizada, ganhando expressões gigantescas no racismo e na homofobia, mas ressalto nesta minha reflexão a violência contra as mulheres.   
  
O machismo é uma expressão de rivalidade com o feminino, uma revelação do conteúdo invejoso que se faz presente em todo e qualquer tipo de ataque contra o feminino. Dentro de todo homem e de toda mulher existe o aspecto feminino e o masculino. Como sabemos, o feminino é representado através das formas arredondadas da mulher, como o útero, o seio, a gestação, e amamentação; é simbolizado no abraço, no colo e no carinho. O masculino sendo diferente do feminino, surge simbolizado em uma força mais agressiva e intrusiva; tudo aquilo que lembre o falo, o poder, o que penetra, também o que protege e semeia para fecundar.  
O masculino é algo expressivamente exposto, já o feminino reserva em seu interior os mistérios que nos mobilizam a desvendá-los.   
  
O ser humano é fruto de um casal, não existiríamos com apenas uma parte. Se somos seres incompletos e precisamos sempre de outra parte para nos constituirmos humanos, por que uma parte iria querer destruir a outra parte? Por que o masculino sempre quer atacar o feminino?   Se a mulher é imprescindível tanto quanto o homem, por que este homem mantem uma conduta de ataque e superioridade repetindo o padrão cultural imposto desde o início dos tempos?  
Seria isso um machismo estrutural? 

Recentemente, em uma das aulas que participo com Dr. Arnaldo Chuster 1, fui surpreendida com uma pergunta inusitada: Quem foi o primeiro ser humano que pensou, o homem ou a mulher?   
Arnaldo, com sua pergunta inédita, parece que ativa em nossas mentes uma condição para pensar em algo que antes nunca havia sido considerado. Ele prossegue explicando para o grupo que foi a mulher quem primeiro pensou na vida humana, devido à condição materna para a rêverie.  

Wilfred Bion explica que “a capacidade de rêverie da mãe é o órgão receptor da colheita de sensações que o bebê, através de seu consciente, experimenta em relação a si mesmo”2. Lembrando que o consciente do bebê nos primórdios da vida se restringe ao corpo e às sensações físicas.  A mulher ao desempenhar sua função materna, conta com uma capacidade intuitiva que a faz captar as sensações de seu bebê e traduzir, ajudando-o a metabolizar os desconfortos. Assim, podemos compreender a rêverie como sendo aquela condição admirável que uma mãe tem para ‘adivinhar’ o que seu bebê precisa e oferecê-lo os cuidados apropriados.       

Podemos considerar que é do feminino essa função rêverie, que faz sonhar e que traz à luz, sempre, algo que foi fecundado e semeado pelo masculino. Um completa o outro e cria além. Internamente a mulher, ao conceber seu bebê, também gesta o pai de seu filho em sua própria mente, harmonizando assim seu casal simbólico. A ideia de um casal que gera um terceiro é um princípio gerador de vida na saúde mental do ser humano.  

Freud disse que a mulher tinha inveja do pênis. Melanie Klein, como uma mulher bem constituída internamente, provavelmente com um casal interno fértil, não entrou em rivalidade com seu mestre, muito pelo contrário, deixou-se fertilizar por ele, e quebrou tabus ao mostrar a inveja que o homem tem dos principais aspectos femininos, o útero e seios. Sabemos que pênis, útero e seios são símbolos que toda mente humana pode ter, desde que esteja protegida de ataques machistas e violentos.  
Mas então por que as mulheres são tão atacadas e humilhadas se o feminino habita em cada um de nós e é um fator essencial para uma condição de pensar?  

Se o homem, ou mesmo a mulher, ditos empoderados dos dias atuais, se sentem tão poderosos, por que precisam se comparar e competir medindo forças e poder? Muitas mulheres que se comportam de forma machista tanto quanto os homens, não estariam atacando o próprio feminino que existe internamente?  
Desvendar os mistérios de uma mulher parece ser um exercício de contínua e incessante busca, uma força que move alguns seres humanos a se apropriarem de seu feminino interno, porém, em outros tantos seres, a força mobilizada é a destrutiva e invejosa, que não fertiliza nada.  

Não apenas as mulheres têm mistérios para serem revelados, mas todo ser humano capaz de preservar e cultivar o feminino que existe dentro de si.  

Raquel Siminati  
Membro Associado da SBPRP e do GEP Rio Preto e Região  

Referências:

1 Arnaldo Chuster é médico Psiquiatra e Psicanalista da SOCIEDADE do Rio de Janeiro (Rio 1) e do N.P.I. California, EUA.
2 Wilfred Bion em “Uma Teoria Sobre o Pensar”.