Prepare-se para uma jornada: apresentamos a você o primeiro texto de uma trilogia que, nas palavras do nosso membro filiado Alexandre Janssen, nos conduz de maneira única por trilhas sinuosas da existência, revelando experiências inesquecíveis, desafios inesperados e lampejos de esperança. A vida nos lança em ilhas desconhecidas, cada uma com sua trilha única. Cada jornada é imprevisível, repleta de altos e baixos, quedas, ascensões, emoções e sentimentos. Permita-se mergulhar nas páginas do primeiro texto inspirador, explorando a complexidade da existência e as escolhas que moldam nosso caminho em busca de significado e sentido.

Relógio,morre—

Momentos vão…

Nada já ocorre

Ao coração

Senão ,senão..

Bem que perdi,

Mal que deixei,

Nada aqui

Montes sem lei

Onde estarei….

Ninguém comigo!

Desejo ou tenho?

Sou o inimigo—-

De onde é que venho?

O que é que estranho?

Fernando pessoa poema numero 859 1-1930-outros poemas

I.

Droga. Cadê o resto?. Tem alguém aí?ÉÉÈCOOOOOO…….ÉÈÈCOOOOO……Sem trilha. Onde foi parar o acampamento? Ninguém responde. Sussurros, zumbidos, o chocalho do vento nas folhas. Outro papo, não falam comigo. Sem novidades. A natureza é mais uma a cagar na minha cabeça errante. Só quero um pouco de água. AAi, meu pé está cheio de bolha. Devia ter tirado essa meia enxarcada. Não aguento mais andar. Vou deitar aqui mesmo, até me acharem. Melhor não. E se um animal me atacar. Animal? Animal não come merda. Ainda mais desse jeito que você está, seu verme, nem presa serve. Seu Bosta!! Não adianta ficar aqui, melhor continuar andando, nem que seja rastejando. Tem que dar em algum lugar. Tenho que sair daqui.   

Corpus Christi. Depois do sucesso anterior tinha de prosseguir com os acampamentos. Deixara de ser um filho do carpete. Agora me tornei um escoteiro. Categoria de base para um bom cidadão, miniatura de homem. Fazer fogo, cozinhar, se localizar, dormir na mata, mexer com bambu , primeiros socorros. Também leva velhinha para atravessar a rua, mas é muito mais que isso. Aprende a se virar na vida. Nada de papai e mamãe para te acudir. Tem até juramento. Uma lei dividida em 10 artigos: O escoteiro tem uma só palavra, sua honra vale mais que sua própria vida; O escoteiro é leal; O escoteiro é cortes e pratica diariamente uma boa ação; O escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros; O escoteiro é bom para os animais e as plantas; O escoteiro é obediente e disciplinado; O escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades (adoro esse); O escoteiro é econômico e respeita os bens alheios; O escoteiro é limpo de corpo e alma. Como que fui acreditar nesse programa safado de menino modelo? Haja pecado para querer se redimir sendo enlatado na forma do bom mocismo. Método militaresco aparentemente bem-intencionado desenvolvido pelo seu fundador, Baden Powell.

   Uma larva. Hora para dormir. Os adultos decidem o que, como e quando posso aprender. Um pé no saco. Futuramente serei um chefe de família, um cidadão brasileiro responsável pelo desabrochar do nosso país. A geração do futuro. O futuro já começou. Hoje a festa é sua…. Cada um tem a referência que merece. Meu futuro tem a trilha sonora do especial de fim de ano da TV globo. O roteiro também não é autoral. Minha família já traçou meu ofício antes de vir ao mundo. Serei um advogado. Isso mesmo, um representante da justiça, defensor e entendedor da lei. Assim como meu tataravô, meu xará, formado no Largo San Francisco. Serei o próximo DR da família. Grandes ações esperam minha assinatura. A OAB terá um representante ilustre. Peças jurídicas extensas, reuniões, embates no tribunal, pendura. Terno, gravata, consultório imponente. Casa em Miami. Amantes.  Cocaína. Não precisa de cartomante para ver o que me aguarda. Só olhar para o papai. Sempre Alerta!. Obrigado, Baden Powell. 

Sigo perdido, sujo, suado, cansado e sedento. Percorro por círculos, triângulos, a geometria toda e nada de resgate. Até porque ,gênio, se você percorre uma figura geométrica,termina onde começou. Puta que o pariu! Aprendeu nada mesmo hein. Aprendeu nada na escola, aprendeu nada no escotismo, analfabeto funcional da vida. Virei um artefato desse lugar. O saco de lixo que o povo deixa na praia. Imagino o José de Alencar esbanjando adjetivos e parágrafos infinitos para falar da relva tropical. Li O Guarani pela escola, dormi na terceira página. Se estivesse aqui escreveria um Aurélio inteiro sobre esse jardim botânico das profundezas. Certeza que seria o éden tupiniquim. Mata Atlântica. Reinado verde dos trópicos, desbravado heroicamente pelo homem branco e cultuado pelo povo de Peri. Para o náufrago da capital, tudo mato. Vai para a puta mãe gentil que te pariu. 

Minha fantasia de gente que se vira não chegou até aqui. Se afogou na travessia. Achei que era uma ilha paradisíaca. Capítulo segundo das minhas aventuras longe da saia maternal. Achei que tinha virado uma máquina da sobrevivência na selva . Te cuida Amazônia, tô na área!. Virei sub do sub da minha patrulha, seria sub em breve, quiçá monitor. Até  almoço seria feito por mim. Seria um grande playground de glória e lazer. Como se tivesse recebido um lançamento livre dos zagueiros, tiro do goleiro e bato de chapa para o gol com a precisão de uma tacada de golfe. Como o Romário nas eliminatórias da copa de 94 contra o Uruguai no maracanã. Corri de braços abertos em direção ao frenesi dos geraldinos sem o jogo sequer ter começado. Encarei o presente com a fita do passado. Caí da cama implacavelmente. Ainda por cima todo mijado. Achei que já tinha passado dessa fase.  Sem epopeia. Sem poesia. Sem futuro. No future? God Save the Queen. Sex Pistols. Save me!Save me, saaaaaave me.Queen. Ouvir o Freddy Mercury agora, nessa altura do campeonato, arranjar um jeito de sair daqui você não faz né. Radialista de merda. Quem dera fosse um sonho. Me tira daqui, por favor.

 O sonho desabou ontem junto com a barraca, espancada por São Pedro…Estávamos eu e os meus subalternos de patrulha, arrumando nossos aposentos para dormir. Os mais velhos fazendo o jantar. Estávamos ali, dentro de uma estrutura de pano grossa, costuradas por nós mesmos e erguida por mim com mastro de bambu. Nossa morada na terra do nunca.  Enquanto arrumávamos as coisas para dormir após o jantar, em meio à descontração e planos para o dia seguinte, começou a lição divina. Digna de velho testamento.

 A pancadaria pluvial tomou forma, o mastro edificado pelo Niemayer da tropa, futuro engambelador da lei, despencou. Subitamente fomos abafados por aquele tecido velho e mofado que revestia o refúgio dos garotos perdidos. A prova da minha incompetência, do meu despreparo, da minha ilusão, pisando na minha cara. Catatônico, senti a posse do pavor, que parecia aguardar pacientemente a hora de habitar minha consciência. Como um pescador aguardando o puxar da vara. Sou presa fácil. Consumido pela escuridão, me vi no berço, esperneando e urrando uma dor imensa, repentina, desconhecida. Assassina. Clamo por um acolhimento que nunca chegou. Pai? Mãe? Babá? Onde vocês estão? Voltando para os escombros da barraca, o horror se potencializa quando percebo que eu sou o mais velho deles. O sub do sub, tenho que fazer alguma coisa. Se mexe, porra! Nada. Fui contaminado. Quem chove agora sou eu. Choro convulsivo, esfomeado, esganecido. Socorro! Socorro! HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ. Risos de coro de teatro grego, apontando a realidade. Meus supostos protegidos, que em nada se estremeceram com tudo aquilo, denunciam jocosamente minha reação fetal, a realidade deles era outra. Estavam ali, esperando a tempestade passar. Era só isso, bebezão.

  Saí correndo dali, humilhado. Não só a barraca que caiu, minha consciência sucumbiu junto. A farsa de que eu prestava tinha sido descoberta. Esbaforido e aos prantos, caí em alguma pedra e fiquei ali na terra mesmo . Perdi todos de vista. Agora estou aqui, que nem bicho. Nem bicho eu consigo ser. Bicho se vira, busca, protege, ataca, defende, sobrevive. Estou morto nesta sauna florestal, defumado pelo terror. Virei um fantasma. Ajoelhado olhando para o continente suplicando pela salvação. Trago forçosamente o ar úmido e nefasto que carrega um cheiro ocre de querosene com fracasso. Sou um refugo da existência. Me desculpe, Baden Powell.