Convidamos você para um mergulho no último capítulo da trilogia de Alexandre Jansen, onde a música e a existência se entrelaçam em uma dança complexa e uma não existe sem a outra. Neste encerramento, somos confrontados com a inquietude de nossa busca por sentido, enquanto a música se torna uma metáfora para a própria existência. Prepare-se para uma leitura que transcende as palavras e nos leva a questionar a essência da experiência humana.

Último show. Não precisava terminar assim. Até agora foi matador. Trinca do Trash germânico: Destruction, Sodom e Kreator! Tocando Coma of Souls na íntegra! Fucking Epic. Sehr Gut! Poderia parar por aí. Voltar para a pousada e se preparar para o dia seguinte. Chega de pilsen e haxixe por hoje. Not yet, vamos alegrar os pseudo headbangers, a galerinha da unha preta, bermuda, tênis da Adidas e Prozac.  Que venha o Korn. Os padrinhos do Nu Metal. Tem uma música do Ratos de Porão que diz algo assim: Aids Pop Repressão o que eu fiz para merecer isso. Poderia fazer um adendo com o nu Metal. Por que justo no ano que venho aqui? Por quê? Tentei ir embora, mas aqui a coisa é seria, o ônibus sai apenas no final de todas as bandas. E meus amigos gostam disso. Inacreditável, acabaram de ver 3 shows avassaladores, uma verdadeira aula da música obesa e insistem nessa patifaria. É o som do momento, cara. O show deles é muito irado, se liga nesse groove. Vão abrir com Blind, certeza, puta Riff.

Só o que me faltava. Tenho que ouvir essa heresia. Puta riff? Um começo desse que parece um cavaquinho daquelas bandas de pagode xexelentas. O baixista parece que toca berimbau. Geezer Butler, me perdoe! E as guitarras depois… Que timbre horroroso… tudo afinado um tom abaixo… abafado que só… parece um grande arroto, mal dá para diferenciar as notas. Uma maçaroca só. Mas o que importa é remexer o esqueleto como um epiléptico descolado. Muito obrigado, Sepultura! Olha o que vocês fizeram com o Roots. Podia ter continuado a pegada do Chaos A.D, estava ótimo. Agora até o Slayer está nessa modinha lançando o pavoroso Diabolous in Musica. Kerry King, como você pode fazer isso comigo? Comeu merda? Só pode. Vai se arrepender para o resto da vida. Bem-vindo ao clube. 

Diminuíram o ritmo, entra o vocal, Jonathan Davies. O cara não canta, ele sussurra. Virou noites do terror do Playcenter:

There’s a place inside my mind, a place I like to hide
You don’t know the chances, what if I should die?
A place inside my brain, another kind of pain
You don’t know the chances, I’m so blind!

A galera toda cantando. Em êxtase. Todo mundo pulando, virou micareta. Carna Freak. Onde que fui parar? 

Quem sabe a próxima seja melhor. Tomara. Ah não, olha esse agudinho, parece uma unha deslizando sobre a lousa vagarosamente. Como que a Unesco permite uma coisa dessas.   

Hey, I’m feeling tired
My time, is gone today
You flirt with suicide
Sometimes, that’s okay
Do what others say
I’m here, standing hollow
Falling away from me
Falling away from me

Beating me down
Beating me, beating me
Down, down
Into the ground
Screaming some sound
Beating me, beating me
Down, down
Into the ground 

Algo muito estranho está acontecendo, estou odiando gostar, mas parece que tem algo de masoquista nesse som , algo que me puxa sedutoramente para um lugar conhecido e ao mesmo tempo estranho, muito estranho. Vou me aproximando dessa frequência hipnotizadora. Essa já ouvi! Freak on a Leash, o clipe passava direto na MTV:

“Something takes a part of me
Something lost and never seen
Every time I start to believe
Something’s raped and taken from me, from me”

Estou no meio da multidão, abduzido. Será que eles também são tão fodidos quanto eu? Porra, que vida de merda. Achei que a faculdade ia me fazer encontrar algum sentido nisso tudo. Estou procurando algo, parece, que perdi há muito tempo, ou que nunca tive né? Espero que o estágio nesse escritório me leve para algo melhor. Tanto faz tanto fez. Ainda esperançoso. Lembra o Sr Mersault do estrangeiro? Aquele começo do livro: “Hoje mamãe morreu. Ou foi ontem, não sei”. Está cagando e andando. É nois. Qual será a próxima?

Mother, please forgive me. I just had to get out all my pain and suffering. Now tha I am done . Remember I will always love you. I’m your son. Parece que já ouvi isso em algum lugar…

Corpus Christi. Depois do sucesso anterior tinha de prosseguir com os acampamentos. Não era mais um filho do carpete. Me tornei um escoteiro. Categoria de base para um bom cidadão, miniatura de homem. Que? O que está acontecendo? Onde estou? De novo isso? Não pode ser….

“I scream, no one hears me
It hurt, I’m not a liar
My God, saw you watch
Mommy why your own child?” 

Droga. Cadê o resto?. Tem alguém aí? ÉÉÈCOOOOOO…….ÉÈÈCOOOOO……Sem trilha. Onde foi parar o acampamento? Ninguém responde. Sussurros, zumbidos, o chocalho do vento nas folhas. Outro papo, não falam comigo. Sem novidades. A natureza é mais uma a cagar na minha cabeça errante.

Não é possível, me tira daqui, por favor, me tira daqui. Porque esse cara está chorando no palco? Para com isso, por favor. Eu vou morrer, eu vou morrer.  Cadê meus amigos, onde foram parar? Onde estou? Como que estou de novo nessa merda de ilha? Quem vai chorar sou eu 

“You raped, I feel dirty
It hurt, as a child
Tied down, “That’s a good boy”
And fuck, your own child “  

DR? DR? DR? Está me ouvindo? DR? DR? Meu deus! Chamem a ambulância agora!!! 

Ilha, escritório, festival. Tudo mesmo lugar. Meu lugar.

Lugar nenhum. Sigo Perdido.

Onde está o paciente? DR? DR? DR? Está me ouvindo? Checando o ritmo. Se afastem, vamos chocar. 

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