Ao navegar em águas da mente, o Membro filiado Victor Malerba compartilha sua experiência e nos conduz a uma jornada onde a formação psicanalítica se entrelaça com a criação e o estudo. Baby Eddie Blue e Mama Tirésia personificam o balanço sutil entre liberdade criativa e rigor teórico. Descubra como o conhecimento e a intuição se fundem neste ensaio reflexivo. Desafiando fronteiras e conectando sabedoria, esta é a mente em sua busca infinita.
“Pois a própria vivência, em primeira pessoa, é sempre a matéria prima para a intuição empática de uma experiência subjetiva alheia (…) e, em outro nível, para uma experiência emocional compartilhada”…

“A habilidade de um analista para reter a substância do seu treinamento e experiência e, ao mesmo tempo, alcançar uma visão ingênua do seu trabalho, lhe permite descobrir por si próprio e à sua maneira o conhecimento adquirido pelos seus predecessores” (Bion, em ‘Elements of Psycho-Analysis’, p.72)
Lendo Bion, me deparei com o que o autor escreve sobre a experiência da alimentação e todas as suas contrapartidas subjetivas, como modelo para o desenvolvimento do aparelho para pensar pensamentos. Bion (1962/2014, p.302) coloca que é muito mais provável que o bebê, inicialmente, reconheça um seio mau presente do que um seio bom ausente, sendo que este último estaria associado ao que um filósofo poderia chamar de “a coisa em si”, já que o senso de um seio bom dependeria da existência de um leite que o bebê de fato tomou.
Procurando realizar o que li, pensei na ideia de que, do ponto de vista do bebê, ou, de quem recebe algo, provavelmente é mais simples, no que se refere aos processos mentais envolvidos, perceber que se livrou de algo ruim, do que imaginar que o outro lhe deu algo bom, pois esta percepção demanda maior capacidade de empatia, ou, intuição da existência de um outro. E, como o bebê não teve ainda oportunidades suficientes de viver o “dar”, não possui “repertório mental” para perceber que recebeu algo de alguém. Pois a própria vivência, em primeira pessoa, é sempre a matéria prima para a intuição empática de uma experiência subjetiva alheia (segundo a filósofa Edith Stein, discípula de Edmund Husserl, 1917-1922/2003) e, em outro nível, para uma experiência emocional compartilhada. Buscarei agora considerar um ponto de vista em que o viver uma sensação ou emoção em estado bruto, desorganizado, “na própria pele”, pode ser visto como algo fundamental para uma intuição profunda e verdadeira do outro e, metonimicamente, das ideias, pensamentos e emoções que transitam pelo mundo da vida.
Proponho um modelo para tentar dar conta dessa ideia. Penso que, se consigo pensar uma experiência emocional com clareza, é porque há, ao menos, duas partes em mim: uma que não pensa e só vivencia; e outra que só pensa e não vivencia. E que há uma cisão suficiente entre essas duas partes para que uma provoque, dialogicamente, o desenvolvimento da outra. Tentarei a seguir justificar tal ponto de vista.
Desdobrando esse modelo que estou propondo, das duas “partes” que mencionei, posso imaginá-lo, narrativamente, como dois personagens habitantes da mente, um bebê e uma mãe:
Baby Eddie Blue e Mama Tirésia
Baby Eddie Blue estudava piano a seu próprio modo: nunca ouvindo as orientações da sua mãe e professora, não se importava com a teoria musical. Seguia apenas os instintos dos seus dedos, que perambulavam pelo teclado, como uma criança que explora o parquinho de areia do clube. A curiosidade dos seus dedos pedia: “e se os dedos forem um pouco mais pra lá, deixa eu ver que som sai… e mais pra cá, como fica?”. Cada som desse fluxo era uma pergunta que solicitava um próximo… e um próximo… e um próximo… como uma sequência de lâmpadas acendendo, uma após a outra, na escuridão: iluminando e, ao mesmo tempo, gerando novas sombras, que instigavam mais ainda.
A mãe Tirésia insistia que ele deveria aprender as escalas, mas ele não queria dar ouvidos. Ela dizia que ele deveria aprender a escala maior, a das teclas brancas, e a escala menor, que tinha também teclas pretas. E que não deveria misturar uma com a outra, pois o som ficaria feio. Daria conflito entre as notas. Quando Eddie Blue perguntava qual conflito era esse, ela dizia, sempre: “Cuidado… não sei qual… mas acho que o conflito é di piano”.
Mas o bebê Eddie Blue era muito teimoso e achava que, se ouvisse os conselhos da sua mãe, seus ouvidos ficariam duros como os dela. Ao menos, essa era a sua percepção. A mãe Tirésia disse pro Bebê Eddie Blue que ele era muito desconfiado, mas o bebê pensou: “Às vezes eu queria aprender a ser uma pessoa menos desconfiada, mas se isso acontecesse, desconfio que não seria mais eu”.
Como era desconfiado e queria saber se o que a mãe dizia era verdade mesmo, um dia, na calada da noite, Baby Eddie Blue decidiu misturar as duas escalas, a de Sol maior e a de Sol menor, fazendo soar uma dissonância tamanha que provocou um choque elétrico musical: misturou beleza e feiúra, subir e descer, alegria e tristeza. Assim, sem querer querendo, criou a escala do blues, que daria origem ao rock, que por sua vez daria origem ao pop, e assim por diante, rumo ao infinito. Era uma música impura, vinda das ruas, distante da elegância da música de câmara, ensinada nas aulas de piano formais.
Um outro dia, muito tempo depois, perambulando pela casa também na calada da noite, Eddie Blue ouviu sua mãe cantando, quase sussurrando. Ouviu também os pássaros da madrugada, os cantores de serenatas apaixonados e mesmo, ao longe, também as notas distantes da música de câmara. A teoria musical entrava, assim, naturalmente, literalmente chegando pelo ar. Então, percebendo que “sua” escala sempre existiu, viu que não havia criado nada, ou melhor, que criou misturando a seu modo o que já existia, pois esteve sempre conectado, enquanto dormia e sonhava, ao universo das vibrações sonoras que chegavam até ele: percebeu que o infinito também se estendia até o passado, ramificando-se pelo presente ao seu redor e caminhando rumo ao futuro.
Havia percebido a íntima ligação entre receber o mundo dentro de si e dar-se para ele: são dois lados de uma mesma moeda. Apreendia assim um sentido inédito das palavras gastas “aprender” e “ensinar”, “dentro” e “fora”. Eddie Blue, agora um jovem, percebeu que não era complicado estudar criando e criar estudando, unindo as pontas dos dedos ao seu cérebro – o velho ao novo, o conhecido ao desconhecido – passando pelo coração.
Acompanhando o que Bion (1963/2014) coloca sobre a relação entre continente e conteúdo, imagino que uma pessoa, ao ter a experiência consigo própria de ser o bebê que apenas chora, brinca, vive emoções e sensações e as “evacua” para dentro da mãe, adquire matéria prima mental para constituir internamente esse tipo de situação dialógica, entre um personagem “bebê” que sente e emana sentimentos (sinto que esse termo “emanar” é melhor do que “evacuar” para descrever essa situação) e outro personagem, uma “mãe”, que sonha esses sentimentos. Tal situação une a sensorialidade e a vivência emocional pois é, ao mesmo tempo, sensorial, uma vez que há a pura descarga de elementos beta, e também profundamente emocional, pois é, em si e no todo, a experiência emocional de se ter uma mãe. O bebê Édipo, de posse de uma energia vital que não mede consequências para existir, evoca uma mãe Tirésias que lhe diga algo sobre ele mesmo, que dê um sentido para aquela energia intensa e viva, mas dispersa e sem contorno.
Penso que esse tipo de situação, quando flui, permite o desenvolvimento mental criativo, verdadeiro, pois compreender uma ideia que está no mundo — por exemplo, a ideia sobre o que é usar uma caneta já existia antes de virmos ao mundo — é também criar tal ideia internamente, a partir da própria matéria prima subjetiva. Ou seja, é preciso receber as emanações em estado bruto que provém do bebê e trabalhar nelas. Em oposição a este processo de desenvolvimento mental criativo e verdadeiro – e sempre paralelamente a ele – há o processo adaptativo, que substitui o uso da matéria prima bruta do bebê e o sonhar da mãe por um processo em que a repetição interna e externa de palavras é equacionada à suposta intuição da situação emocional que essas palavras representam. E um comportamento autômato e obediente, porém eficiente em criar uma aparência de espontaneidade e criatividade, substitui gestos emocionais verdadeiros.
Aprender um conteúdo, na dimensão autômata, é equacionado à memorização das palavras e frases que são lidas, por exemplo, para repeti-las posteriormente. Penso que, quando funcionamos dessa maneira, silenciamos o bebê que brinca e sente emoções, classificando-o como desordeiro e egoísta; e a mãe sonhante é classificada como permissiva e pacificadora num sentido negativo. Assim, efetua-se um silenciamento da própria criatividade, e consequentemente, da realização de ideias, em troca de uma adaptação. Relaciono este processo ao que Bion formula teoricamente como Ps funcionando como se fosse ♀, ou seja, há uma operação que, de forma mecânica, retém uma dinâmica como se fosse a operação ♀♂ (Bion, 1963/2014, p. 40).
Por outro lado, imagino a relação fértil entre o “personagem bebê” e a “personagem mãe” como comparáveis a duas etapas do proceder de um artista que, numa primeira etapa, cria de forma intuitiva, em que inclusive o ato de pensar é contraproducente, e uma segunda etapa, que organiza e traduz aquela intuição em algo que seja favorável ao compartilhamento, seja com outras mentes ou com outras dimensões mentais da mesma pessoa, formando um “grupo de trabalho dos personagens internos”. Apenas, no grupo de trabalho dentro da mente, essas etapas não seriam sucessivas, mas simultâneas e oscilatórias. Em outras palavras, estou falando de um casamento entre liberdade e rigor.
Acredito que um dos desafios que são enfrentados na formação psicanalítica reside na dificuldade de diferenciação entre o que é criar a partir da teoria e o que é uma desconsideração com a teoria psicanalítica. Quando essa diferenciação não está clara, há uma tendência a se perceber a criação ou sonho como se fosse uma desconsideração, no sentido de desvio, da teoria. E há uma segunda tendência que é a de perceber como rigidez a tentativa de incorporar rigorosamente a teoria. Penso que há uma diferenciação suficientemente clara entre essas duas situações quando estamos livres para: criar e estudar, para criar estudando e para estudar criando. Há o risco, ao meu ver, de paralisação na teoria dada, sem sonhar, baseando-se na crença de que um professor detentor de um conhecimento (que é necessário e básico na formação) seria suficiente para que eu realize criativamente os conceitos. Lembrando que, se considerarmos a ideia de Bion de que a própria vivência pessoal é essencial para a realização dos conceitos, então é impossível dissociar realização e criatividade: a própria vivência é o material básico a partir do qual se “pinta o quadro” da realização da teoria. Não há, portanto, desconsideração da teoria quando se sonha a partir dela. Ao contrário, isto é necessário para a realização. Em relação ao segundo ponto, há também o risco de se acreditar que é possível prescindir da leitura da teoria, ou, risco de fazer uma leitura de modo que aquilo que acreditamos ser uma aproximação à teoria se confunda com aquilo que já conhecemos e que justamente torna mais opaca a nova realização, apesar de isto também ser, de certa forma, um modo de aproximação inicial.
REFERÊNCIAS
Bion, W.R. (2014). Learning from experience. In. BION, W. R. Complete Works. Vol. IV. Karnac Books. London. (Original de 1962)
Bion, W.R. (2014). Elements of Psycho-analysis. In. BION, W. R. Complete Works. Vol. IV. Karnac Books. London. (Original de 1963)
Stein, E. (2003). Introduccíon a la filosofía. In. STEIN, E. Obras Completas. Escritos Filosóficos. Vol II. (Tradução: Francisco Javier Sancho, OCD et. al. Revisão: JulenUrkiza, OCD). Burgos: Editorial Monte Carmelo; Vitoria: Ediciones El Carmen; Madrid: Editorial de Espiritualidad. (Originais de 1917-1922).
Deixe um comentário