Em memória ao Dia de Finados, a psicanalista e membro efetivo com funções didáticas da SBPRP, Maria Aparecida Sidericoudes Polacchini, nos emociona com um texto sensível nomeado “Luto, transitoriedade e saudade”.

LEGENDA: Foto enviada por Gilene Andrade Santos, membro associado da SBPRP
Luto, transitoriedade e saudade
Maria Aparecida Sidericoudes Polacchini
Uma perda significativa nos dá a conhecer a dor de tempos e relações que não voltam mais. Como no dizer da canção, con que tristeza miramos un amor que se nos va, mas permanecem lembranças vivas e profundamente transformadoras, a despeito da separação que leva consigo um pouco de nós também.
Na mitologia grega as Moiras decidiam o destino dos deuses e homens. Usavam um tear – “Roda da Fortuna”, símbolo da transitoriedade, metáfora dos ciclos biológicos da vida – determinando os processos de nascimento, crescimento e morte.
Para além do mítico, uma vida, de acordo com as contingências, pode ser abreviada, como em pandemias, catástrofes da natureza e guerras. Tânatos desafia continuamente Eros, mantenedor do vínculo com a vida. Demanda-se, então, pela qualidade do tempo vivido: encontros fecundos, alegrias e dores, ressignificação da vida e contínuos renascimentos.
Em “Sobre a transitoriedade” Freud (1916) destacou a natureza efêmera das coisas e nela a essência da experiência estética. Poetas e compositores versejam e cantam em tom menor a dor das parcerias que se desfazem pela vida afora, as separações dos amantes, a saudade.
A vida impõe lutos. Dentre tantas dores, a ausência provoca aridez e nostalgia, mas a força da realidade externa e a plasticidade psíquica mobilizam o trabalho de luto, que conduz ao encontro de novos sentidos e novas representações simbólicas que sustentam vitalizado nosso ser, acolhendo o renascer do novo tempo de vida.
Finalizo este pequeno texto com um excerto do poema “Sementes”, de Mia Couto (“Poemas escolhidos”, SP. Companhia das Letras, 2016):
Vida,
vale vivê-la
se, de quando em quando,
morremos
e o que vivemos
não é o que a Vida nos dá
nem o que dela colhemos
mas o que semeamos em pleno deserto.
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