Uma viagem no tempo! Este é o convite que nosso blog traz para vocês, onde seremos guiados pelo membro associado Marcelo Salles Bueno, que nos conta sobre sua visita a Viena, à casa de Freud e à Sociedade Psicanalítica de Viena. Marcelo nos apresenta suas impressões, emoções e sentimentos de maneira viva, oferecendo palavras que nos levam a viver com ele sua experiência nas terras de nosso grande precursor. Passado, presente e futuro se entrelaçam em suas fantasias e o desfecho surpreende por levar cada viajante a acolher, em sua intimidade, nosso primeiro lar, como a primeira casa de um casal, de maneira sensível e cheia dos mais diversos afetos! Uma boa viagem a todos! Soltem os cintos e desfrutem!

Quando somos con-vocados a conhecer a psicanálise, muito antes da formação oficial de psicanalista, grande parte dos estudantes inicia sua trajetória pelo estudo da obra de Sigmund Freud. Esse primeiro encontro normalmente provoca confusão mental, pois leva-se tempo para que o neófito compreenda que terá de aguentar com paciência para apreender quarenta anos de construção das ideias do criador da psicanálise.  Com o decorrer do tempo, percebe-se que não são apenas as décadas de edifício teórico, mas é também a feitura de uma vida, com sua historicidade e as fontes das quais esse autor se nutriu. Estes ingredientes suscitam vultosa admiração por esse autor, em razão da grandiosidade de sua vida e produção científica.  São elementos que, aos poucos, vão se organizando em nosso mundo mental, e uma série de compreensões internas passam a fortalecer a nossa vida pessoal e profissional.

Para grande parte dos analistas, ler Freud é um prazer científico e literário. A maneira como ele se descreve nas descobertas que realiza, a agonia que ele expressa ao tentar dar sustentação a suas teses, a melodia que se escuta quando passamos os olhos sobre suas palavras, tudo isso gera uma variedade de sentimentos, que o leitor passa a imaginar, estupefato, como esse autor alcançou tamanha clarividência. Se for possível suportar a passagem pelo silencioso deserto sobre a corcova de um camelo, em que os horizontes confundem nossa limitada percepção e o desconforto da incompreensão se presentifica, será possível alcançar alguma sombra de uma tamareira. Nesses pequenos oásis, as elaborações se amplificam e, semelhante a uma miragem, sonhamos sobre as miudezas que esse autor percorreu: como era viver em Viena nessa época? Quais os lugares que esse grande homem percorreu? Como era a casa em que ele vivia? Como é a paisagem desse local? Como é o alimento desse povo? Como é a língua dessas pessoas? Despertado por este interesse, tal qual uma criança olha para sua mãe, embevecida por tamanha harmonia e curiosa em desvendar seus mistérios, aventurei-me em uma viagem no tempo, em terras austríacas, para tentar me aproximar da atmosfera do terreno sagrado para os psicanalistas.

De início fiquei impactado com a grandiosidade e o luxo que vivem os vienenses. A sensação era de ser feriado todos os dias, quase não se via carro nas ruas. Muitas bicicletas e patinetes motorizados transitavam entre as pessoas. Cada cantinho, um jardim florido e bem cuidado. Resolvi deixar minha personalidade burguesa no hotel e percorri longos trechos de metrô e a pé. Tudo parecia tão calmo e organizado!

Alguns meses antes dessa viagem, enviara um e-mail à Sociedade Psicanalítica de Viena para saber se haveria algum evento ou alguma comemoração na semana do aniversário de Freud, período este em que eu estaria nessa cidade, mas não obtive retorno. Esta Sociedade recebeu este nome em 1908; antes disso, era conhecida como Sociedade Psicológica da Quarta-feira e o grupo que a compunha era de grandes nomes do início da psicanálise: Freud, Stekel, Adler, Kahane, Reitler; e convidados que, posteriormente, juntaram-se ao grupo: Ferenczi, Eitingon, Jung, Abraham e Jones.

Com meus olhos mais tranquilos e adaptados à exuberância do cenário vienense, procurei no mapa a localização da Sociedade Psicanalítica de Viena, que ficava somente a um quilômetro da Berggasse 19, endereço de Sigmund Freud. Segui em direção à Sociedade, fantasiando como seria o prédio, a recepção, as salas de aula do instituto e as pessoas. Em silêncio, assistia aqueles que transitavam entre os trens da cidade. Viajando no tempo, fitava as carruagens com seus belos cavalos trotando pelas ruas, o barulho metálico das ferraduras sobre o chão e o relinchar dos cavalos anunciando o descanso depois de um tempo de trabalho. Vinham-me imagens daquele grupo de analistas engravatados com seus chapéus e charutos, conversando e debatendo sobre psicanálise nessa Sociedade. Ao andar pelas ruas, à procura do prédio, deparei-me com uma propriedade de quatro andares. Era este o endereço, não havia dúvida. Era um prédio antigo, malcuidado, com aqueles interfones com vários botões afixados na parede lateral do edifício. Encontrei um com uma pequena inscrição em alemão, meio desbotada: “Wier Psychoanalytische vereinigung” (Grupo psicanalítico de Viena). O desgaste dos botões denunciava tantas digitais que por ali passaram. Apertei-o com vontade. Observei que entre os vários, este era o único que indicava uma instituição no local. Apertei-o novamente. Nada. Apenas silêncio e frustração. Inesperadamente, alguém abriu a enorme porta de madeira. Era um jovem rapaz. Perguntei-lhe se ali ficava a Sociedade de Psicanálise, e ele não soube responder. Disse-me que ali era um prédio residencial e que parece que tinha alguma coisa comercial também. Sem preocupação, deixou-me entrar. Era um corredor meio escuro que dava para um elevador antigo, daqueles com grades, tinha seu charme. Mal cabiam duas pessoas. Tentei, em vão, achar alguma porta que tivesse uma cara de Sociedade de Psicanálise. Encontrei! A mesma inscrição da porta que dava para rua, mas desta vez era uma pequena moldura de uns 20 centímetros, escrito: “Grupo Psicanalítico de Viena” e, logo abaixo, “Academia Psicanalítica de Viena”; supus que se tratava do que chamamos de instituto. Bati à porta, pois não havia outro recurso sonoro. Ninguém atendeu. No site dessa Sociedade, a indicação era de que estaria aberta e funcionando naquele dia. Tentei ligar para o número que constava no site. Silêncio, ninguém atendia. Senti-me uma criança que descobre que o papai Noel era o tio magrinho da família que carregava um saco cheio de espuma. Desconsolado, fiquei por um tempo em frente ao prédio, tentando achar uma solução ou me conformar com a despedida.

Uma amiga, companheira de viagem, e o cigarro me confortavam, por uns minutos, preenchendo o vazio daquele momento. Ao longe, caminhava em nossa direção uma senhora baixinha, meio esquisita. Destoava do cenário de pessoas elegantes que andavam pelas ruas: uma calça colorida, uma camisa de renda e um cabelo meio alaranjado. Sim, ela estava se aproximando para entrar naquele edifício. Pensei, bom, vou tentar novamente. “Por gentileza, a senhora sabe me dizer se neste prédio funciona a Sociedade Psicanalítica de Viena?”, perguntei-lhe. Daquela boca miúda e emoldurada por bochechas avermelhadas de maquiagem, escutei a voz da esperança: “Sim, é aqui mesmo. Eu trabalho aqui, sou a secretária.” Aos meus olhos, até que ela ficou mais graciosa, não que ela demonstrasse alguma simpatia. Tentamos, os três, nos atarraxar no elevador, cara a cara, senti o cheiro do café! Falei-lhe com entusiasmo que éramos brasileiros e membros de uma Sociedade de Psicanálise no Brasil. Ela soltou um sorriso insosso, sem dar muita importância e, ligeira, abriu a porta.

Seus passos eram espertos. Corremos para alcançá-la pelo corredor. Havia uma pessoa em um escritório, sentada, mexendo no computador. Pensei: “mulher preguiçosa! Nem deu bola para o telefone”. Rapidamente a pequena avermelhada mostrou-nos três salas e explicou-nos que ali aconteciam os atendimentos que a Sociedade oferecia à população. Uma das salas estava ocupada, possivelmente um atendimento estava em curso. Havia uma sala maior de reunião e um banheiro apertado, onde me aliviei antes de partir. Perguntei-lhe se a instituição estava com algum evento preparado para aqueles próximos dias e ela respondeu que não. Sem delongas, a pequena senhora foi se dirigindo à porta, mostrando as pequenas salas e indicando-nos a saída. Disse estar muito ocupada.

Foram alguns minutos de contato com aquela pequena Sociedade de Psicanálise, a primeira fundada por Freud na cidade que viveu praticamente toda sua vida. Naquele pequeno espaço se encontraram pensadores enriquecidos de criatividade e vida, que construíram a base das formações da IPA no mundo inteiro. Não era um espaço ostentoso. Havia quadros na parede de alguns psicanalistas e uma fotografia de Freud. Era um prédio discreto, acanhado até. A secretária era gente do povo, devia trabalhar, não tinha tempo para vaidades.  Não parecia se preocupar com as expectativas que eu havia criado. Nem deveria.

 Sobre a residência e consultório de Freud não vou me alongar, mas apenas expressar que a mesma simplicidade estavam presentes naqueles dormitórios. Um sobrado com quartos amplos, que Freud dividia com sua família e onde atendia seus pacientes a poucos metros dos cômodos pessoais. É um sobrado despretensioso e sincero, sem pompas, sem exageros. De lá saíram centenas de artigos elaborados à mão, com uma caneta-tinteiro comum, e transformaram o modo de pensar do mundo. Daquele espaço modesto, pacientes que contribuíram para o pensar psicanalítico subiam as escadas para se encontrar com um homem incomum, cheio de ideias. Ali mesmo, era uma casa simples, não tinha móveis, não tinha nada, ali, em Viena, a cidade rica e luxuosa, marcada pela arte de seus grandes pintores e renomados compositores, nascia, com esmero, a psicanálise, na rua Berggasse 19, na tradução para o português, no beco, caminho da montanha.

Das alterações que minha mente produziu sobre essas paisagens e esses personagens, ficaram muitas dúvidas e material para pensar. Que memórias eu carregava sobre o que é ou deveria ser uma Sociedade de Psicanálise? Que referências foram usadas? Estaria o velho mundo psicanalítico cansado ou o novo mundo acelerado? Teria o velho mundo encontrado uma tamareira ou se perdeu no deserto? Ou estaria o novo mundo ainda aferrado a miragens passageiras?

Dos parcos euros e um punhado de fotografias que sobraram, restaram também as boas lembranças de um lugar que ainda produz muita reflexão.

Marcelo Salles Bueno

Membro Associado à SBPRP

Membro Efetivo do GEP Rio Preto