No livro Além da projeção – Uma década de cinema e psicanálise (2023), a psicanalista Maria Lucimar Fortes Paiva, membro associado da SBPRP, em seus comentários a respeito do filme Abril Despedaçado, desenvolve sensíveis e necessárias reflexões a partir de uma história que se passa no sertão do nordeste
brasileiro, mas que poderia ser uma história a respeito do oriente médio com suas guerras atuais e sobre tantas outras. Por quê?

  • Porque é uma história dos sentimentos humanos de vingança e poder e da luta
    para conquistar o amor. Trata dos esfacelamentos que podem ser vividos em nome
    de cânones, códigos e leis instituídos, quando estes sobrepassam o existir de cada
    um. Oferece-nos a oportunidade de assistir a uma luta angustiante por manter a
    honra, sob a tutela da violência, segundo uma tradição, quando esses códigos se
    encontram também a serviço de impedir a liberdade e a própria existência (p. 161;
    162). […]
  • Mas, nessas relações que se alimentam da morte, o que se retém são coisas
    amortecidas. Conceber a existência do novo, do outro, é se dispor a uma dolorosa
    experiência de retaliação sem fim. Não se pode esperar que o desconhecido, o
    outro, seja mais complacente e amoroso do que aquilo que se sente ter em si
    mesmo (p. 164). […]
  • Aparentemente, menos oneroso é que se preencham com o desejo vingativo, por
    um mal sempre atribuído ao outro – Breves ou Ferreiras. São os Ferreiras que
    iniciaram a briga, do ponto de vista dos Breves, e a recíproca acontece, com
    certeza. Pacu conta que seu pai lhe dissera que ‘a luta é Olho por olho. E de um
    olho por outro olho, acaba que todo mundo ficou cego. E em terra de cego, quem
    tem um olho todo mundo pensa que é doido?’ É ele, o Menino, quem pode se
    aperceber desse olho que tem, que pode ver o que se passa, e que se sente
    enlouquecer, porque só ele, com a companhia de Tonho, pode enxergar a vida
    com os olhos de quem está vivo, enquanto os outros se fixam na morte. Nas
    palavras de sua mãe: ‘Nessa casa, os mortos é quem comanda os vivos’ (p. 164;
    165).