O projeto “Composições: Arte e Psicanálise” apresenta a inspiração da colega Patrícia R. A. Tittoto, membro associado da SBPRP, que se coloca, e nos possibilita colocarmo-nos, diante do inusitado, numa performance artística, que tantas reflexões sugerem!
Presente diante da artista sérvia Marina Abramovic, Patrícia inspirou-se como participante de uma experiência original, que nos remete ao incognoscível da sala de análise.
“Composições: arte & psicanálise”
por Patricia R. A. Tittoto,
Membro Associado da SBPRP

“Há mais bela perspectiva, para quem busca
compreender, que situar o olhar sob o tema da
inquietude? Não há aí descanso possível para o espírito.
Inquieto, o espírito é, de algum modo, por natureza.”
Jacques Leenhardt
Arte e psicanálise são afeitas aos fenômenos sensíveis e imprevisíveis que se presentam nos processos de significação, na celebração do encontro (com níveis diferenciados de desencontros) rumo aos vértices estéticos que revelam preconcepções que antecipam e buscam a beleza, sendo essa, uma forma vigorosa de aproximação com a verdade.
O rastreamento de sinais narrativos, manifestados nas expressões artísticas, visam maior competência para se aclarar linguagens verbais e não-verbais fazendo-nos lidar com fatos intrinsecamente misteriosos que parecem zombar da nossa ilusão em querer prever todos os passos de percurso montados em ordenação. E eis que nos pomos à prova de viver trajetos eleitos na escuridão povoada pelo indefinível e iluminados pela, como nomeou Nosek, nossa ‘disposição para o assombro’.
Foi assim que, de repente, me encontrei, em um chuvoso maio de 2010, adentrando uma das salas do MOMA e deparando-me com a performance The artist is present, da artista sérvia Marina Abramovic expondo-se à multiplicidade do olhar do outro de maneira que, refletido no corpo da artista, esse outro possa se ver, sentir emoções pertinentes à complexidade que o constitui, sonhar, se pensar singular e múltiplo.
O convite aberto para estar frente a ela, contemplar o ‘entre’, a parceria formada, remontava-me à sala de análise: duas subjetividades que pretendem confiar no acolhimento mútuo, despindo-se do habitual, para se exporem ao traumático que o infinito da presença da alteridade lhes traz.
Fui!
Recriada a ‘tempestade emocional’ (Bion) oriunda do encontro de duas personalidades, vislumbrei espectros, vertigens, riscos de minhas partes trágicas se sobreporem ao mais épico de meu ser na paleta de matizes existentes de dor mental.
Mas… Grata, chorei. A artista se fez presente! Em companhia viva! _ reposto o fiduciário título desta performance.
O relacionamento arte e psicanálise implica suspendermos potências interpretativas, gestando trânsitos entre: o perceptível e o inalcançável, o dizível e o não-dito.
Silenciosa surpreendente passagem essa, ao que não é nós e, em nós, se faz ouvir.
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