O projeto “Composições: Arte e Psicanálise”, publica, ainda neste dezembro de 2023, a inspirada composição da colega psicanalista, membro associado da SBPRP, Silvana Mara Lopes Andrade, que nos leva a um delicado e vibrante mergulho num momento de improviso de um compositor e pianista genial, do jazz, jazz fusion, blues, e até mesmo música clássica, Keith Jarrett. Silvana vincula o improviso desse momento de Jarret no “The Koln Concert”, aos nossos momentos singulares na clínica, onde temos que nos haver com o artista em nós e improvisarmos também.
Sigam os links e ouçam o álbum mais vendido na história das gravações musicais.
A arte da improvisação
na música e na psicanálise
por Silvana Andrade,
Membro Associado da SBPRP
Keith Jarrett, um dos maiores talentos do jazz, iniciou sua vida musical na infância, destacando-se por sua precocidade e qualidades musicais. Interpretou brilhantemente composições de autores clássicos, como Bach, Mozart e Shostakovich, compôs e interpretou suas próprias obras, embrenhando-se no mundo do jazz – gênero musical que tem como característica a improvisação.
Paralelamente, trabalhou com a criação espontânea, levando a improvisação solo a um nível totalmente novo, que podemos conferir neste trecho da gravação da hipnotizante performance “The Köln Concert”, de 24 de janeiro de 1975, na Ópera de Colônia, na Alemanha:
As performances de Jarrett nos fazem perceber que o jazz e a improvisação não é somente o que se executa, mas principalmente como se executa uma peça. Ele escolhe um piano específico para cada apresentação e opta por documentar apenas performances ao vivo, comunicando a importância que confere ao contexto do concerto, desde a física do piano à plateia. Cada apresentação é única, uma
verdadeira criação em conjunto com o seu público, que o acompanha e o inspira, sustentando-o nos seus movimentos de experimentação e descoberta.
Para executar a performance de “The Köln Concert”, Jarrett teve que enfrentar situações adversas. O concerto aconteceu no meio de uma turnê mundial. Ele chegou cansado e com dores físicas ao teatro, poucas horas antes do concerto, para a inspeção. Encontrou um piano de estudos, desafinado, com o pedal de sustentação bloqueado e com algumas teclas pretas que não funcionavam, reservado para a sua apresentação. Perplexo com a confusão da organização, que reservou um piano da mesma marca solicitada, mas de tamanho e recursos diferentes do solicitado, precisou de um tempo até aceitar que não haveria possibilidade de trocar o instrumento e assumir realizar o concerto mesmo assim, adaptando-se à adversidade que havia encontrado.

Às 23h, entrou no palco sem ter ideia o que iria tocar. Sentou-se ao piano, concentrado. O toque da campainha da ópera soou anunciando o início do concerto. Foi a partir das quatro notas dessa melodia que Jarrett começou a improvisar. Inicialmente hesitante, mas decidido a não lutar contra o instrumento,
imergiu em suas profundezas, permitindo um estado mental criativo se instalar, facilitando intuição e criação ocorrerem simultaneamente.

A caixa de som do piano, consideravelmente inferior à do piano solicitado, deixava as notas graves sem profundidade e as notas agudas ressoando metálicas. Jerrett então, demorava-se muito nas notas médias, batendo nas teclas com muita força, tocando ritmos repetitivos com a mão esquerda, acompanhados pelo bater do pé no palco e, às vezes, por sua voz, muitas vezes abrindo mão da sonoridade em
favor do ritmo. O concerto foi todo improviso. Tocou de maneira virtuosa e natural, adentrando em territórios que não estava acostumado a explorar. Alcançou um esplendor melódico, expressando a emocionalidade indizível da experiência.
Emocionou as centenas de pessoas presentes na plateia e continua emocionando as pessoas que ouvem a brilhante gravação do evento.
O swing e a capacidade de improvisação de Keith Jarrett me inspiram como modelo para pensar o que se passa no setting analítico. Assim como a improvisação musical demanda um estado mental criativo, a situação analítica também o faz. Nós psicanalistas, precisamos estar em sintonia com nosso analisando, criando um clima facilitador o suficiente para que possamos vivenciar uma experiência emocional em uníssono com o analisando, sonhar a experiência vivenciada e vê-la a partir de diferentes vértices, numa improvisação criativa, propiciando a expansão mental do analisando.
O que fazemos em uma sala de análise se não improvisar?
Foto por Wolfgang Frankenstein – Álbum ao vivo Keith Jarrett: The Köln Concert 1975 (ECM) – via discogs.com
Deixe um comentário