Em experiência profunda e que nos conduz para transformações sobre o visceral, espaços impensáveis, conjecturas sobre o que ainda não alcançamos, mas procuramos nomear, buscas entre a escuridão e a luz, de momentos a serem acessados, Silvana M. B. Vassimon, membro efetivo com funções didáticas da SBPRP nos oferece seus olhares psicanalíticos fecundos, através da expressividade criativa da artista Adriana Varejão.

RUÍNAS E NASCENTES NA PSICANÁLISE E NA ARTE

por Silvana Vassimon, Membro Efetivo
com funções didáticas da SBPRP

Ela é uma mulher. Suas obras estão espalhadas pelas maiores galerias de arte do Brasil e do mundo. Adriana Varejão é uma das mais celebradas artistas plásticas contemporâneas brasileira, nascida no Rio de Janeiro, em 1964.


Sua obra impacta! Desassossega, inquieta e, por vezes, enternece o coração!


À crueza de certas imagens sucedem-se outras de imensa ternura e frescor. Adriana não poupa seu observador. O trânsito afetivo se faz sem esforço, como deve, ou deveria ser, em uma sessão de análise.


Sua obra “Ruína de Charque” me sugere o universo interior de cada um de nós. Ainda sob os ecos de um congresso sobre o Eu e o Isso, me deparo com uma inquietante ilustração, aquela que, vinda da Arte, nos remete a Freud e seu alerta: os poetas falam das coisas da mente humana ainda antes (e talvez melhor?) do que a Psicanálise consegue fazê-lo. Mais tarde, Bion retoma e transforma o dito quando “desenha” o território da Psicanálise como um vizinho colado à Arte, à Literatura, à Filosofia e Poesia.


“Ruína de Charque”: de um lado uma rebentação de azulejos em arabescos, tal qual um inconsciente a ser conhecido; uma linguagem com reentrâncias, protuberâncias, curvas e volteios; incógnitas com força criativa e meandros intocados. Arabescos de um desconhecido!


De outro lado um deslizar de claridade! Azulejos em branco, imperfeitos, em uma estética particular e inacabada… Prontos para ganharem texto, feito página em branco a ser escrita por cada um de nós em movimentos de Vir-a-Ser.


Entre eles, o charque! As entranhas! As vísceras! Aquilo que instala Cesura, espaço de rudimentos… separa e une duas linguagens, dois momentos! No meio, a carne crua, em viva gestação… pedaços de cada um a permitir conversa e aproximação entre o desconhecido que nos habita e, em outro instante, o que já nos faz Eu. Na Psicanálise, ainda o anúncio de continuidade, ainda o apreço pelos arabescos, ainda o cuidado com o clareado a constituir território uno entre cheiros e partes e sangue, entre dores, humores e êxtases, quando então o sofrimento indizível encontrará pouso, e repouso, na banalidade da realidade possível.