Thaís Marques, psicanalista da SBPRP, Membro Efetivo com funções Didáticas, nos apresenta o seu profundo e fino trabalho onírico de quando esteve diante da escultura Ascension, do artista plástico indiano-britânico Anish Kapoor.
Trata-se de uma obra de arte impactante, com impulsos ascendentes de aspecto fluido e etéreo.
Apreciem, a obra e os sonhos!

Ascension” de Anish Kapoor


por Thaís Helena Thomé Marques,
Membro Efetivo com funções Didáticas da SBPRP

Em janeiro de 2007, tive a sorte e o prazer de visitar a primeira mostra individual no Brasil, de um dos mais importantes artistas contemporâneos em atividade: Anish Kapoor.
Escultor, no mais puro sentido da palavra, ele levou a escultura a um novo patamar estético e técnico, incorporando a ela técnicas que se originam na aeronáutica, na indústria pesada e na arquitetura.

A exposição “Ascension”, além de outras obras, trouxe uma escultura imaterial homônima, formada por uma coluna de vapor em espiral lançada ao teto e sugada por um equipamento especial a 120 quilômetros por hora. Um desafio às leis da física, obra cujo suporte vai além do tecnológico e atinge o fenomenológico, em direção às sensações e emoções.
Devo ter ficado ali em frente ao que entendi como uma coluna de fumaça, por muito tempo e não me recordo quanto. Sei que me causou impacto, tal a sensação que tive ao me encontrar diante de uma instalação que parecia importada de outro mundo.

Embora o que se apresentava aparentasse algo bastante simples como forma, havia uma estonteante complexidade de elementos de natureza, técnica, estética e de acabamento. A forma denunciava uma face oculta que me instigou curiosidade, esse avesso que nos unifica: corpo e mente.
Como pode o homem, Anish, instigar o medo do infinito, da inconsciência, da falta de mim mesma, seja qual for o nome que eu possa dar a essa sensação, ao descrevê-la através de uma forma de natureza imaterial, me perguntei. Isso requer paixão e disponibilidade, pensei.
A arte estava querendo renascer em mim! A interação com a obra transformou meu tempo interno, ele foi desacelerando. Essa vivência deu vida à obra e ela deu mais vida a mim, tal qual a experiência com a psicanálise. Na arte e na experiência analítica compartilhamos vida, movimento e, no entanto, o tempo desacelera.

Afinal, se a lentidão conduz o processo psicanalítico, vamos criando elasticidade durante a experiência, para que tenha continuidade e mantenha sua qualidade complexa em relação às emoções, o que a diferencia das outras psicoterapias.
Porque não se trata, apenas, da ideia de o imaterial (não objeto) tornar-se material (objeto), que é o que ocorre com a obra “Ascension”, onde o vapor torna-se coluna. Também acontece na experiência analítica, mas trata-se, principalmente, de como lidar com a complexidade de atravessar uma passagem para ascender do material (corpo) ao imaterial (mente) e de como suportar a descida da mente ao corpo.
Em razão de experimentarmos o trânsito entre esses estados que são complementares e não contrários, cada vez mais penso que arte e a Psicanálise trabalham em “regiões” limítrofes. São áreas em que a turbulência é inevitável e por essa razão, na experiência analítica vamos tendo que aprender a estar diante da bruma, da escuridão, do mistério, da incerteza.
Após a visita da mostra, por meses fiquei a imaginar que, assim como a Psicanálise, Anish Kapoor trabalha num abismo entre o físico, profundamente terreno e o imaterial, essencialmente imaginativo. O abismo representa a separação, o limite entre corpo e mente. Sua obra, assim como a experiência
analítica, se desenha sobre essa linha que causa assombro e fascina ao mesmo tempo. Seguimos apaixonados, assombrados e fascinados!