Como é a sensação de realizar um sonho, realizar um encontro com um presente que guarda um passado e constitui o futuro? A seção Atelier do Pensar traz nesta edição, “Um Caminho para a Liberdade”, relato poético da psicanalista Josiane Barbosa Oliveira, de sua visita ao Quilombo dos Palmares, maior espaço de resistência dos povos escravizados no período colonial. Josiane nos apresenta de forma pulsante a potência desta visita, descrevendo com poesia e afeto o que foi vivido, ressaltando a importância da conservação da memória histórica como parte de nossa cultura em constante transformação.

“Sonhos existem pelo prazer de serem realizados. De grandes (acordar vivo) a pequenos (tomar um suco de tamarindo), todos têm a cota de prazer necessária e suficiente”.

Sonhos existem pelo prazer de serem realizados. De grandes (acordar vivo) a pequenos (tomar um suco de tamarindo), todos têm a cota de prazer necessária e suficiente.

Hoje foi um dia de realizar um sonho. Dos grandes. Estive com minha família conhecendo/visitando o Quilombo dos Palmares, em Alagoas. Uma experiência tocante e simbólica .
Palmares representa nossa histórica resistência. Ver, ao vivo, o sítio legalizado pelo Ministro Gil, amparado pelo grande Abdias Nascimento e tornado Patrimônio do Mercosul, registra o que fomos, o que somos e o que podemos ser.

Absorvi a simplicidade do lugar como algo ancestral. O transporte a um tempo onde espaços comunicavam e acolhiam. Senti-me assim na grande Árvore de Gamela Branca, fonte de força e fé da Lagoa Sagrada dos Pretos.

Histórias fortes e apagadas são recortadas na visita guiada por Mestre Gil (este, um educador social e capoeirista) presentificando os derramamentos de sangue, mas também as excelentes estratégias e a evidente Democracia dos Quilombos.
Um poder de um grupo que desafiou as opressões e os opressores. Um poder que durou 3 gerações e foi iniciado por uma mulher, Aqualtune, Guerreira Congolêsa, avó de Zumbi.

Cada biografia recontada remete a fazeres novos e saberes que só acrescentam. Como não querer saber mais sobre temperos e ervas medicinais da sabedoria indígena de Acotirene? Como não se interessar pelas habilidades de cada Orixá ali reverenciado? Como não salivar diante dos pratos com significado, apresentados por Dona Neide no Restaurante Baobá?

Não precisei acordar para descobrir que estava sonhando. E isto é a parte boa da realização dos desejos: você fica com o ganho da experiência, você viveu mesmo aquele momento que, um dia, julgou que faria acontecer!

BAOBÁ

Comida ancestral
É resistência
Essência vital
Revigora
Alegra
Empresa

Amalá
Carne cozida com pó de camarão
Moqueca
De banana verde e leite de coco
Xequeté
Suco energético de gengibre,maracujá ,canela e mel

Cada chegada na boca
Um canto no coração
Cada estalar na língua
Uma memória
Uma oração
Gratidão , Natureza
Gratidão quem veio antes.
Axé

LAGOA SAGRADA DOS PRETOS

Gamela Branca é árvore
E tem dias , anos , séculos
Manhãs ensolaradas, noites de estrelas e sangue
Fogo ardente de inimigos

Cada um traz ou leva
Paz,
Raiva
Medo,
Desejos.

Gamela marca a fé
Abraça a Lagoa
Envolve a mata.
Fica lá, quieta,
Gritando a história.