Hoje, o projeto “Composições: Arte & Psicanálise”, traz expressões de Ana Cláudia Gonçalves Ribeiro de Almeida, psicanalista, membro efetivo da SBPRP, entrelaçando arte, psicanálise e cultura e, especialmente sensibilidade que se deixa tocar e nos toca.
Compartilha um encontro que, pela via onírica, desdobra-se em muitos outros.
Perpassa pelo pessoal, pelo coletivo e pela ancestralidade, entre questionamentos, apontamentos e terrores forçados.
Em seu texto “TYTY – ONDE ESTÁ MINHA BISAVÓ?”, ela nos narra que:

“Tyty – Onde está minha bisavó?”
por Ana Cláudia G. R. de Almeida,
Membro Efetivo da SBPRP
Em Guarani tyty é a pulsação do coração e das emoções que explodem em um abraço, em um encontro, num olhar… ao sermos tocados por uma música, uma imagem, uma obra de arte. Na sabedoria Guarani é este pulsar, o tyty dos afetos e do coração que “registra e ativa nossas memórias em nosso cérebro” . 1
Era 2019, noite em terras mineiras, Tiradentes, caminhando em ruas feitas em pedras ou pedras que se faziam passar por ruas, uma jovem oferecia sua arte. A artista, universitária de S. J. Del’Rei, pretendia participar de um congresso de ceramistas e precisava de recursos. Sabendo quase nada dessa mulher encantada que passeava na noite mineira de pedras oferecendo sua cerâmica, pude saber ou me lembrar um pouco mais de mim mesma. Uma pequena peça em sua mão perguntava – “Onde está minha bisavó?”. Quem perguntava? Ela? Eu? Nós? Onde está minha bisavó, sua bisavó, nossa bisavó, nossa avó, nossa memória ancestral, nossas origens.
A jovem conta da procura pelas origens indígenas, ao mesmo tempo evidentes e apagadas, reconhecidas e negadas, lembradas, mas esquecidas. Agora expressas, resgatadas em sua pequena peça que perguntava a nossa pergunta em comum.
Também minha, eu também descendente de indígenas, mas tão distante da minha raiz.
“Onde está minha bisavó?”
A pequena peça de cerâmica despertou algo de uma memória ao mesmo tempo particular e universal. Uma busca do originário da espécie, da cultura, mas também da individualidade. No encontro com a arte, a cultura e a psicanálise, criamos e recriamos o mundo para existir, cada um e cada qual de acordo com sua própria natureza, aprendi isso no tyty proposto por Winnicott com o nome de espaço potencial*. Tyty o pulsar da vida que nos permite ao encontrar o mundo, recriá-lo ao nosso modo.
Seguindo o ritmo do pulsar da vida continuo me aproximando da arte indígena, aprendi com Davi Kopenawa e Ailton Krenak que os povos originários dançam e cantam para sustentar o céu sobre nossas cabeças, são caçadores de beleza, encontrando e ao mesmo tempo (re)criando o mundo. Junto com minha
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1 INSTITUTO MARACÁ | Página Rec.tyty (instituto maraca.org.br.)
cerâmica e minha pergunta, compartilho também um caminho para conhecer um pouco mais sobre essa arte originária, deles, nossa. Da nossa bisavó.
Acesse para mais informações: https://www.institutomaraca.org.br/rectyty
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