O projeto “Composições: Arte & Psicanálise” oferece hoje as emoções e as reflexões psicanalíticas que “A lenda do poço”, estimulou em Érika Araújo Silva, membro filiado da SBPRP.
Essa lenda faz parte do livro “Homens imprudentemente poéticos”, de Valter Hugo Mãe.
Érika nos fala das nossas cegueiras e estranhamentos a respeito do que nos habita e nos é desconhecido. Acompanhem suas sensíveis expressões!

“No fundo do poço somos só cegos”

por Érika Araujo Silva, psicóloga
e Membro Filiado da SBPRP

Em função de uma investigação clínica, em busca de palavras de alcance e de um caminho para pensar o que seria “estar no fundo do poço”, recorro à literatura. No capítulo “A lenda do poço”, Valter Hugo Mãe escreve a respeito. Alguns trechos relevantes:

“Adormecido de exaustão, o artesão falhou escutar o ruído de algum bicho abeirando-se da boca do poço. Andava por ali algum animal farejando, a matutar na carne fresca do homem…e ele inteiro chegou num salto junto de Itaro que, apavorado, despertou e gritou: mato. Eu mato. Então, escutou o gemido ferido do animal. O artesão levantou-se, procurou impossivelmente trepar paredes acima… A noite toda se foi medindo no exíguo espaço e prestou atenção àquela aflição contínua… com o dia, seguiu sem
ver… No fundo tão fundo eram só cegos. Foi quando Itaro distinguiu… Estar no fundo do poço era menos estar no fundo do poço e mais estar cego, igual a Matsu, sua irmã. Estava, por fim, capturado pelo mundo da irmã. A menina habitava o radical puro da natureza… A senhora Kame, cedo, gritou: senhor, vivo. Perguntava. E ele respondeu: sim. Preciso de uma lâmina, urgente. Um sabre, uma arma. Há um animal terrível aqui embaixo. Veio para me devorar. E o que devorou, perguntou a criada num susto. O artesão
respondeu: nada. Geme. Estrebucha, que eu bem ouço, mas vejo nada. A senhora Kame perguntou: que bicho é. Itaro repetiu: vejo nada. Estou a fugir-lhe à boca, desconheço que força tem”.
Penso que seriam estas expressões para o que chamamos em psicanálise de terror sem nome, uma primeira apresentação mental para o que Bergstein, A. chamou de impressões sensoriais primordiais, que não podem ser experienciadas mentalmente. “Uma realidade emocional vivida como violenta deve ser tratada (pela mente) com igual violência”.
Neste capítulo, o autor narra os dias em que o protagonista Itaro, seguindo a prescrição de um mestre que foi consultado para aconselhá-lo sobre seu ímpeto de matar insetos e flores e maltratar as pessoas, passou dentro de um poço na companhia de um bicho de grande porte que poderia devorá-lo a qualquer momento, segundo pensava Itaro. Todos os dias enviavam comida poço abaixo e o
bicho feroz passou a ser alimentado por ele, que não queria virar a comida do bicho. Passaram a dormir encostados um no outro e trocavam calor quando fazia frio. Itaro o abraçava, mais procurando mais o contato de pele, do que o calor. Mais para abrandar o frio da alma do que do corpo. O que não sabia, é que o bicho estava dentro dele.

Pensei na dimensão física do pavor, das sensações de aniquilamento terríveis apresentadas a mente humana através de imagens onde somos presas de feras imensas e vorazes e na imagem do poço como um esboço incipiente de um continente mental. Imagem que abarca um terrível sem nome e ainda desprovido de sentido. Esta fúria primeira, uma espécie de urgência, do terror inerente a própria vida, num segundo momento pode ser sentida como desamparo e ódio/amor/terror pelo viver e por sentimentos de dependência e ser só.
“Estou no fundo do poço” é uma expressão popular usada quando a pessoa se sente sem recursos para viver sensações e sentimentos desta natureza. Diz-se que o fundo do poço é onde se dá o impulso para alcançar um estado de melhores condições (materiais e imateriais). O fundamento para esta expressão me parece vir de uma imagem simbólica, usada por Valter Hugo Mãe, do poço como um primeiro continente mental para sentimentos tão avassaladores.

Bergstein, A. Emoções Violentas e a Violência da Vida. Livro Anual de Psicanálise
(2022). XXXVI, 47-63.
Mãe, V. H. Homens Imprudentemente Poéticos. Editora Globo (2016). 122-142.