O primeiro “Composições: Arte & Psicanálise” deste mês de março é presenteado com o texto da Débora Hagel Mellem, Membro Efetivo da SBPRP, que reflete sobre psicanálise, música e arte de forma encantadora.
Vamos acompanhá-la?

Camille Kachani e o som do coração
por Débora Hagel Mellem,
Membro Efetivo da SBPRP
Descobri Camille Kachani através de sua obra “Piano solitário” (2021), com a qual vivi uma experiência estética que me encantou, alcançando as raízes profundas de meu ser e do meu modo de expressar emoções através da música e do tocar piano. Encontrar quele piano “vivo”, do qual brotavam galhos e folhas despertoume um interesse em conhecer seu autor, um libanês que veio com sua família para o Brasil nos anos 70, fugindo da guerra civil, aspecto biográfico que se revela em suas criações, através das lembranças de sua infância. Segundo seu relato, o exílio vivido é um símbolo da precariedade humana e ao mesmo tempo um motor de sua obra, trazendo um devir, uma possibilidade de viver transformações.
Herkenhoff (2023) apresenta em seu livro “o amplo diapasão” da obra de Kachani, 1 que inclui diferentes linguagens como fotografia, colagens, pintura e escultura, através das quais aborda inúmeros temas como críticas sociais, as guerras, os apagamentos daqueles considerados desprezíveis, a indústria das imagens e o modo instantâneo de se viver e também mergulha nos aspectos da identidade, sempre em construção, indefinida, incompleta e aberta.

Outro tema que aborda em suas criações, que me tocou de forma especial, consiste na relação de entrosamento entre a natureza e a cultura, expresso na “Orquestra assinfônica fotossintética” (2022) um conjunto de esculturas de 2 instrumentos silenciosos, que além do “piano solitário” que me referi, incluem “violoncelo melancólico”, “trompa indecisa”, “trombone curioso”, clarinete pensativo”, “saxofone esperançoso”, dentre outros, nos quais também brotam ramos, folhas raízes.
Compõe a musicalidade com elementos visuais em objetos metamórficos, nos quais a matéria prima original (madeira das árvores) transforma-se em criações humanas sofisticadas e ao mesmo tempo evoca o movimento contrário, no intuito de expor a fragilidade da condição humana e os significados que não somos capazes de alcançar.
São tantas correlações que podemos fazer entre a psicanálise e a obra de Camille Kachani…
O psicanalista em seu ateliê, com sua vitalidade, intuição e capacidade de sonhar, precisa ouvir o som do coração, do paciente e de si mesmo, favorecendo o entrosamento entre o primitivo, pré-verbal e o sofisticado, entre a animalidade e a condição de pensar, gerando transformações de situações de sofrimento, nas quais o analisando sente-se exilado de si mesmo. O trabalho analítico pode abrir
caminhos esperançosos e brotar nascimentos psíquicos num contínuo tornar-se aquilo que se é.
Deixe um comentário