Em nosso projeto “Composições: Arte & Psicanálise” deste mês de março, apresentamos hoje o criativo e expansivo pensamento de Victor de Barros Malerba, membro filiado da SBPRP, que conjuga seu texto com artes cinematográfica e musical, num resultado profundo e alentador.

Nenhum pensamento ou emoção é ruim desde que se possa desdobrá-lo:
composições entre a geometria mental e a arte
por Victor de Barros Malerba
Nos comentários que se seguem, teci alguns pensamentos a partir do desenho acima. Fractais são figuras geométricas geradas por padrões de auto-semelhança, ou seja, cada uma de suas partes infinitesimais recupera a imagem do todo, criando camadas infinitas. Considerar o modelo teórico do fractal como imagem gestáltica da mente pode ser útil, já que, assim como um fractal, o pensamento nunca pára – ambos, mente e fractal, possuem infinitos começos e fins. A partir de cada ponto que constitui o fio do nosso pensamento, poderiam ser “puxados” infinitos fios, em direções infinitas. Por isso, a partir de tal perspectiva, não há um pensamento ou emoção ruim, se considerarmos a continuidade que aquele pensamento ou emoção pode ter.

Por exemplo, durante um encontro, posso imaginar que a pessoa à minha frente foi substituída, sem que eu percebesse, por um leão, que irá me caçar. Tal pensamento nos transporta para o mundo (ou dimensão mental) da fantasia, assim como fez Dorothy, no filme “O Mágico de Oz”. Embora desagradável, esse pensamento pode nos levar a ideias não pensadas ainda, caso se dê continuidade
ao fio puxado por ele (ou à “estrada de tijolos amarelos”…).
Ao considerar a si mesma, nossa mente tem dificuldade em lidar com a complexidade. Talvez porque seja esse próprio “considerar si mesma” que origina a complexidade. A consciência está, digamos, no “marco zero” da experiência. Assim, por exemplo, não é possível uma pessoa observar a parte de trás de sua
cabeça, a não ser utilizando de um espelho. Do mesmo modo, a única forma de observar o próprio pensamento é através de um novo pensamento, que por sua vez também está sujeito a ser seguido de outro que o observará – como numa “metaobservação” (Marques, 2022).
No cinema, não vemos a câmera que está filmando o filme que estamos experienciando. O complexo funcionamento da câmera é ignorado por nós para que possamos ter uma experiência emocional livre, ingênua. Assistindo um filme, somos livres para julgar, condenar e até punir os personagens, o que também faz parte da experiência ingênua, afinal, a moralidade também precisa estar presente
para que haja desdobramentos.
O que fazemos, quando exercitamos a nossa capacidade de pensamento, é melhorar a tecnologia da nossa “câmera” para enriquecer a experiência que temos ao assistir o “filme” ingenuamente. O pensamento, nesse sentido, paradoxalmente, permite a continuidade da ingenuidade.
Se imaginarmos a forma do fractal como a trilha de um labirinto visto de cima, com “zoom out”, podemos pensar que vivemos a experiência ingênua quando nossa “câmera-mente” está imersa nas trincheiras do labirinto, sem saber se na próxima dobra do caminho encontraremos um amigo ou um leão. De vez em quando, é útil usar a câmera que vê de cima para nos orientarmos um pouco e seguirmos em frente tomando decisões mais conscientes da complexidade inerente a cada pessoa (padrões “leonísticos” + “espantalhísticos” + “dorothísticos” + robóticos, etc). Com essa câmera, podemos observar que o leão mencionado no início do texto pode não ser “mera imaginação”, nem tampouco a verdade total, mas sim, um aspecto de uma personalidade, ou, uma fração de um universo mental complexo, com muitos personagens e diferentes versões deles, com os quais podemos encontrar ao percorrermos, tal como Dorothy, o caminho do sonho. Por outro lado, usar apenas a câmera que sobrevoa seria perder a experiência imersiva, sensorial e afetiva, desse labirinto. Também na música, assim como nos fractais, um mesmo padrão musical pode se apresentar em diferentes camadas/tonalidades, renovando a percepção da melodia básica, sem perdê-la, mas aprofundando-a.

Inclusive, na trilha sonora do filme “O Mágico de Oz” esse aspecto também pode ser observado: os pequenos círculos que representam as notas musicais sobem e descem num padrão que se repete em dois momentos da música (assinalados em vermelho), porém, no primeiro, as notas se encontram nas linhas de cima – mais agudas – enquanto no segundo elas se encontram nas linhas de baixo – mais graves.
Por fim, conjecturo que há cenas e personagens psíquicos que se configuram como os padrões rítmicos de um fractal, de uma música, ou de um filme, (re)apresentando-se e recriando-se em diferentes camadas na vida mental, num infinito “tornar-se” (Bion).
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