
Meu pai é eletricista e tem uma caixa de ferramentas azul, antiga e enferrujada. Dentro tem alicate, chave de fenda, fita isolante, trena, furadeira, martelo e mais uma porção de instrumentos cujas funções eu desconheço. Ele a leva para todo lugar. Um dia, minha sobrinha perguntou: Vô o que é essa caixa azul? E ele respondeu: é uma caixa de ferramentas. E ela: por que você leva ela pra todo lugar? E ele: porque o vô tá sempre usando.
Neil Harbisson, artista e ativista britânico, é a primeira pessoa no mundo reconhecida por um governo como um ciborgue. Detendo um olho eletrônico/antena implantado em sua cabeça (eyeborg), ele consegue ouvir cores e perceber elementos invisíveis como infravermelho e ultravioleta, tal como receber imagens, vídeos, música e chamadas telefônicas diretamente em sua cabeça (“I listen to color”, TED Global, 27 June 2012).
Um ciborgue é um organismo vivo que possui elementos ou implantes cibernéticos. Tais tecnologias podem ser desde próteses ou implantes auditivos, até dispositivos mais avançados, como exoesqueletos robóticos ou interfaces cerebrais.
O olho eletrônico/antena implantado na cabeça de Neil leva o nome de Prótese, na concepção dos transumanistas. Nesta concepção, as próteses, assim como os implantes, transplantes, enxertos e outros, passam a fazer parte da constituição corporal do ser humano, os quais passam a ser portadores de órgãos artificiais, borrando os limites do natural e do artificial.
Prótese (do grego antigo prósthesis, “adição, aplicação, acessório”) é um componente artificial, cuja finalidade é suprir necessidades e funções de indivíduos acometidos por amputações, traumas ou deficiências físicas. No dicionário da língua portuguesa, prótese é definida como um “dispositivo implantado no corpo para suprir a falta de um órgão ausente ou para restaurar uma função comprometida”.
Pensando no ofício do Psicanalista e nos conceitos de Prótese, parece essencial assumir o uso e a necessidade do uso da mesma. Mas quais usos?
No filme A Chegada (Arrival, 2016), naves alienígenas pousam na Terra, levando governantes a acionarem militares e cientistas de diversas áreas, na intenção de intermediar o que está por vir. Dra. Louise, uma linguista de renome, é chamada. Louise realiza seu primeiro contato com os alienígenas vestida com um traje de proteção máxima desenvolvido para situações de risco radioativo. Porém, logo o abandona. Passada mais da metade do filme, em uma dada cena, o general Chang relata ter decifrado a resposta da grande pergunta feita aos heptapodes: qual o propósito de vocês aqui na Terra? A resposta: Arma. Dra. Louise, não crente nesta tradução, busca outras vias de comunicação, se lançando a um radical encontro íntimo com um dos alienígenas. E então traz à luz a verdadeira intenção dos seres: a oferta de uma ferramenta (a língua deles), em virtude de uma colaboração mútua a ser construída.
O relato sobre o filme servirá de recurso (de Prótese) para refletir sobre o uso da mesma, uma vez que respeita e realiza integrações entre a necessidade, o uso e principalmente a pessoa que a está portando.
O Analista pode ser/usar a prótese como um implante desintegrado da realidade e da experiência emocional em vigor. A entrada em terrenos áridos, do inominável, da dor dilacerante, da turbulência, requerem um desnudamento. A entrega a estes estados pode ser terrorífica, de modo que a teoria, a técnica, a retórica e até mesmo a arte podem servir de próteses, não para dar sustentação e servir de ferramenta, mas para se livrar daquele estado/momento. Uma interpretação pronta ou um poema enlatado são como próteses desintegradas, neste momento.
Contudo, ao considerar o uso e a utilidade da prótese como recurso de aproximação, de intimidade, de nomeação, de escuta e de co-construção, que possibilita a experiência emocional compartilhada, é possível ampliar a reflexão e considerar prótese sob outro vértice: como essencial à função do analista. Uma ferramenta ou uma caixa delas que ofertam e possibilitam encontros-verdade e companhia em tempo-espaço real e autêntico.
E para finalizar, mas ao mesmo tempo, voltando ao começo, minha sobrinha diz: Vô, eu também tenho uma caixa de ferramentas! É um baú cheio de brinquedos que fica lá no meu quarto.
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