O Projeto “Compartilhando Pensamentos” traz um trecho do capítulo “Memórias-sonho”, contido no livro “Algumas matrizes filosóficas o pensamento de Bion” de autoria da psicanalista, Membro Associado da SBPRP, Sônia Maria Nogueira de Godoy. Um capítulo, assim como a vida, para ser vivido!
Na sequência, apresenta passagens do olhar expansivo do capítulo “A maçã dourada”, do psicanalista, Membro Associado da SBPRP, Marcelo Laudelino Salles Bueno.
Ambos autores descrevem suas experiências emocionais vividas, releituras e associações ao escutarem Arnaldo Chuster discorrendo sobre “As raízes filosóficas na obra de Bion: raízes nietzscheanas e Julio Cesar Wals desenvolvendo a temática “Bion e Nietzsche: aproximações livres e associativas”.

Por Sônia Maria Nogueira de Godoy

Se, na religião, o deus cristão conhecido até então, a verdade única, o em a ser esperado ao final da vida, era o que os justos mereceriam, Nietzsche (1885/2012) proclama: “ainda não ouviu falar que Deus está morto?” (p.17). Ou seja, está morta aquela verdade única e absoluta que não admite divergências nem questionamentos.
Assim como também Bion aponta para certezas como mentiras, mostrando que a verdade assim vista se torna pequena, estreita, com domínio limitado. Pelo contrário: a verdade é ampla, complexa, ilimitada, por conter inúmeros vieses, inalcançável. A de cada um e a de ninguém, aquela a ser descoberta. A verdade relacionada ao Belo, à coisa em si, diz Bion, passamos nossas vidas nos encaminhando em sua direção. O tempo? Um eterno retorno, ou seja, um tempo que passa a ser interno e externo, finito e infinito, um retorno eterno. A incerteza é nossa companheira nesse complexo caminho que vamos descortinando à medida que nossas mentes alcançam. “Ơ pode tornar-se, mas pode não ser conhecido. ‘O, é escuridão e ausência de forma” (Bion, 1970/2007, p. 41). Apenas pode ser conhecido quando evoluiu por um conhecimento a partir da experiência, que se torna excursões pela vida, em que procuro me conhecer para tornar-me, e, no entanto, ainda assim, o desconhecido permanece em mim mesma.
Entrego-me à descoberta dessa desconstrução e aceito que, apesar do conhecido que busco, necessito do escuro, do encontro com a cegueira, para encontrar-me com a luminosidade que possa chegar. “É
preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.
[cintilante, segundo algumas traduções]. E vos digo: o caos ainda persiste dentro de vós” (Nietzsche, 1885/2012, p. 22).” (p. 316.)

Por Marcelo Laudelino Salles Bueno

Talvez a escolha pelo caminho seja menos importante que o investimento amoroso empregado na estrada; porque, no amor fati, quem sabe, rompemos com o tempo. (p. 307.)
Ao conhecer a vida e a obra de Wilfred Bion, bem como a de outros grandes expoentes do universo psicanalítico, como Freud, observo na saga desses heróis que, imbuídos pelo amor à verdade, enfrentam toda sorte de obstáculos para levar às novas gerações os valores éticos e estéticos necessários para que a relação humana se amplie e renove. (p. 309.)

Coordenadora: Patrícia Rodella de Andrade Tittoto
Organizadoras: Lídia Neves Campanelli, Alessandra Paula Teobaldo
Stocche, Cristina Mendonça, Luciana Marchetti Torrano, Marta Dominguez
Sotelino
Editora: Blucher (2023)