Em nosso projeto “Afetos: Pastoreiros de Almas”, trazemos hoje um tocante texto/estímulo, para lembrar a todos, do Dia Mundial de Conscientização do Autismo: dois de Abril. Quem nos traz uma esclarecedora e amorosa reflexão é Fernanda Sivaldi Roberti Passalacqua, membro efetivo com funções didáticas da SBPRP, apontando-nos entre outras importantes questões, maneiras com que a Psicanálise atua para auxiliar o portador de autismo a conviver com suas vulnerabilidades. Acompanhem!

AUTISMO
por Fernanda Sivaldi Roberti Passalacqua,
Membro Efetivo com funções didáticas da SBPRP
Eu não era como hoje,
Assim agitado como o mar,
E nem tinha estes pés tão pesados,
Nem os lápis tão usados.
Eu não era forte como hoje,
Era muito parado, frio e morto,
Eu não era tão pequeno,
Então, por agora sou maior.
Eu não dei por esta mudança,
tão estranha, esquisita?
Onde foi parar esta minha face.
(A.S)
A dor das crianças autistas se mantém afastada nos recessos mais profundos da alma, até desaparecer, deixando porém em lugar das emoções e da vida, um buraco negro, profundo e insensato. Sugadas pela sensação deste buraco sem luz, na dimensão do nada, estas crianças são lançadas para um queda sem fim. Como diz Alvarez (1992, p. 24) “para estas crianças, tão fechadas em si mesmas, é como se não houvesse nada em que deixar uma pista, um traço, nenhum ouvinte imaginário”.
No dia 2 de abril, comemoramos o Dia Mundial do Autismo, como um dos meios para sensibilizar , conscientizar e promover a inclusão das pessoas autistas. Ao mesmo tempo que também podemos confirmar e reafirmar a fé e a esperança de possibilitar a construção de uma ponte que torne acessível o encontro com estas crianças tão isoladas e aprisionadas no sofrimento.
A Psicanálise tem promovido a construção desta ponte No contato com uma pessoa autista, somos como que projetados para outro planeta, desconhecido e temido, onde as coordenadas usuais da vida são anuladas e onde vagamos em um nada insensato, como andarilhos, que vagamos, vagamos e nada
encontramos. Não há passado, não há presente. Há somente um vazio absoluto: sem memória, nem lembranças, nem nada para chorar com saudades ou para buscar, nem tão pouco algum prazer em que se agarrar.
É no encontro com o outro, se oferecendo como uma companhia viva, que se torna possível preencher uma parte deste vazio, com compreensão, compaixão e muito, muito amor.
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