Hoje, no projeto “Composições: Arte & Psicanálise”, Alessandra Paula Teobaldo Stocche, Membro Associado da SBPRP, nos apresenta sonhos e movimentos que para ela se abriram enquanto apreciava a obra de arte “La sagesse de la terre” (“A sabedoria da terra”); uma escultura de Brancusi, um dos gênios da escultura no século 20. Este notável artista propunha uma busca evolutiva pela forma pura, tradução de um pensamento complexo.
Apreciem este entrelaçamento tecido por arte, música e psicanálise.

Era uma vez uma pedra que se fez escultura, tendo encontrado no
caminho a Música e a Psicanálise
por Alessandra Paula Teobaldo Stocche,
Membro Associado da SBPRP
O escultor romeno Constantin Brancusi, (1876-1957) viveu em Paris a partir de 1904, após uma viagem que fez a pé desde a Romênia. A França era, à época, a referência em arte, a exemplo de Rodin, seu grande mestre. Estar perto dele era desenvolver suas potencialidades em um espaço de excelência para “aprendizado e produção”.
No Centro George Pompidou, diante das esculturas de Brancusi, em exposição temporária, impressionou-me a obra La sagesse de la terre, sobre a qual ele comenta: “[…] mais do que inscrever o humano na matéria, procuro extrair da matéria o humano que aí dorme”. Há, segundo minha percepção, duas histórias que se cruzam: uma, em busca de espaço para construir a identidade de sua obra; outra, a relação do escultor diante da pedra. Não lhe interessa a pedra: esculpir, retirando camadas, é desvelar a
arte que até então se mantinha latente.
Brancusi cria, “sem violências, rumo às profundidades oceânicas para atingir a mais recuada antiguidade”. Na escultura do artista romeno, em se tratando de uma operação sobre a pedra, a matéria por excelência, o esculpir era uma espécie de imersão num mundo de profundezas.
A psicanálise, como no movimento da obra de Brancusi, caminha para além da superfície, rumo às camadas mais profundas, em direção ao númeno. Reinventa-se essa travessia, atando pontas entre a Arte, como manifestação estética, e a reflexão sobre o humano que nos habita.
O padrão de movimentos em direção à profundidade também pode ser observado na Arte popular como no samba. A canção Espelho, de João Nogueira, ainda no âmbito das linguagens, como homenagem, induz a uma depurada reflexão sobre o vínculo sensível entre pai e filho. A mesma canção foi regravada pelo seu filho, Diogo Nogueira (youtu.be/uCPBBytapMg?si=lMOvBgbx38FfUq9J), demonstrando o caráter
transgeracional das experiências emocionais vividas por eles. O que é aparentemente conclusivo, se faz movimento. O que registra um fim é recomeço.
A profundidade, alcançada nesta música, me remete ao paralelo entre o músico, o psicanalista e o escultor: “Mais do que inscrever o humano na matéria, procuro extrair da matéria o humano que aí dorme”. A fé na vida e a experiência estética no museu George Pompidou, em Paris, também me
põem a caminho: … Era uma vez uma pedra que se fez escultura, tendo encontrado no caminho a Música e a Psicanálise.
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