O Projeto “Afetos: Pastoreiros de Almas” celebra os Povos Indígenas, compartilhando, resgates, reconstruções e reparações para com nossos ancestrais, história e cultura, através da riqueza de um registro elaborado Ana Cláudia G. Ribeiro de Almeida, Membro Efetivo da SBPRP. Um paralelo com o ofício do psicanalista também é por ela tecido. Confiram!

DIA DOS POVOS INDÍGENAS E A BIENAL DE VENEZA 2024

Ana Cláudia G. R. de Almeida, Psicóloga,
Psicanalista, Membro efetivo da SBPRP

19 de abril desde 2022 passou a ser denominado como “Dia dos Povos Indígenas” , uma forma mais respeitosa para celebrar a diversidade cultural dos povos indígenas. 1
Há algum tempo compartilhei meu percurso de (re)descobrimento da arte indígena na pergunta “onde está minha bisavó”.2
Hoje na celebração do novo 19 de abril trago meu encantamento coma obra de Célia Tupinambá convidada para ser representante brasileira na 60ª Bienal de Veneza em 2024 . 3

Célia segue a procura de nossas avós, bisavós e seus mantos sagrados, os mantos tupinambás. Luta há mais de vinte anos para recuperar e reconstituir o território invadido de seu povo que foi dado como extinto no início do século. Em seu percurso de recuperação de sua cultura cria e recria a arte de tecer mantos sagrados a partir da natureza, de penas deixadas por pássaros, mas também a partir de memórias ancestrais que ensinam a reconstituir o presente e apontam para o futuro. Em 400 anos foi a primeira mulher a tecer novamente um manto Tupinambá, tece novos mantos ao mesmo tempo em que tece fios de histórias e encontros, encabeçando a luta por recuperação de mantos centenários levados de
suas terras por colonizadores europeus. Foram localizados 12 mantos tupinambás em museus da Europa e para cada um deles Célia escreveu uma carta reivindicando o retorno do manto a suas origens.
A obra que “vi” é a participação de Célia Tupinambá na Bienal, chamada Ka’a Pûera: nós somos pássaros que andam, a obra que apresentará a capacidade de ressurgimento da vida onde parecia extinta
acreditando que somos humanos-pássaros-memória-natureza. Em tupi antigo ka’a Pûera significa terra que depois de explorada ressurge e também ave que vive camuflada na floresta como resistência aos predadores.

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1- Nova lei denomina o 19 de abril como Dia dos Povos Indígenas, em substituição a Dia do Índio – Notícias – Portal da Câmara dos Deputados (camara.leg.br)
2- BLOG SBPRP | Composições: Arte & Psicanálise- Tyty – Onde está minha bisavó?
3- Glicéria Tupinambá (artebrasileiros.com.br)

4- Bienal Arte 2024 | Página inicial 2024 (labiennale.org)

Rastrear vida onde aparentemente só há deserto, reconstituir fertilidade e criatividade em terras aparentemente arrasadas e voar em memórias-sonho expressa ricamente meu ofício e vocação como analista, psicanálise tantas vezes de tão difícil definição para a ciência positivista, pode ser tão ricamente apresentada pela arte.
Buscando pela minha bisavó descobri que somos pássaros que andam.