Neste mês, nosso projeto Compartilhando Pensamentos, focaliza um artigo psicanalítico científico em tessitura com a arte, publicado na nossa revista Berggasse 19, pela psicanalista Beatriz Troncon Busatto, membro efetivo com funções didáticas da SBPRP.
O título do trabalho já nos encaminha para os rumores, para a sensibilidade auditiva que pode ser captada em momentos de intensos mergulhos emocionais na sala de análise: “A musicalidade do analista, o psiquismo primordial e o trabalho interpretativo.” Partilhando conosco reflexões sobre origens da música, do canto, conversas entre músicos, ela as entrelaça com “conversas” entre psicanalistas sobre o sensorial e o sofrer psicanalítico na solidão da nossa atividade. Apresenta suas conjecturas em seu “setting” propiciador de “rêveries” musicais, introduzindo um sonhar que inclui a arte musical como meio de alcance da linguagem onírica do paciente. Desta forma, ela esclarece:

“A sonoridade do que ouço do paciente em contato com minhas próprias ressonâncias parece gerar em minha mente o que estou denominando de sonho musical ou, dizendo de maneira mais simples, a recordação vívida de alguma canção, como se a estivesse escutando em meu interior; essa presença musical se torna significativa em dado momento da sessão, conforme perscruto meus movimentos psíquicos. Outras vezes tomo consciência, subitamente, de que estou “ouvindo” mentalmente alguma música. Descrevendo um pouco mais o processo do trabalho analítico:” p.82
Esclarecendo que o “sonho musical” não se faz presente apenas através de alguma palavra falada pelo paciente, mas que se trata de algo muito mais complexo, diz:
“Aliás, Luiz Tatit(2011), em uma interessante entrevista à revista Ide, afirma que “a paixão da canção começa sempre pela melodia”p.35. É a esse tipo de musicalidade que credito a captação e o subsequente trabalho elaborativo de dimensões profundas vividas no processo analítico, sendo portanto, um processo muito mais complexo do que meras correspondências entre palavras faladas ou recordada; especulo, assim, se tais lembranças sonoras não seriam pontos de contato com aquele universo primevo de que falo na situação de medo da performance – ali como expressão e aqui como captação de expressões de uma mente primordial, tal como Bion (1977/1981), aborda em seu trabalho “Cesura”, sobre o qual já discorri.” p. 83
A musicalidade do analista, o psiquismo primordial e o trabalho interpretativo. In: Berggasse 19, Vol. XIII, Num.1 (2023)
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