A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, (Unesco), elegeu dia 21 de Maio, “O Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e Desenvolvimento”.

A Diretoria de Publicações, através do Projeto “Afetos, Pastoreiros de Almas” reconhecendo a necessidade e os benefícios de se utilizar do potencial da cultura como meio de promover desenvolvimento sustentável e coexistência pacífica mundial, convidou a psicanalista Luciana Marchetti Torrano, Membro Efetivo da SBPRP e atual Diretora Científica desta Sociedade, para uma escrita a respeito das intolerâncias. A reflexão que ela nos trás é enriquecedora!

Confiram!

Iemanjá e Nossa Senhora Aparecida

por Luciana Marchetti Torrano,
Membro Efetivo da SBPRP

“A ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para todo mundo ” (Ailton Krenak, 2023)

Iemanjá é um orixá do Candomblé e da Umbanda. A Umbanda é a primeira religião brasileira e tem pouco mais de um século. Ela nasceu fruto das religiões de matriz africana e reconheceu nos santos de adoração da religião católica imposta pelos jesuítas, os poderes das entidades ascensionadas, os orixás. O sincretismo religioso, fruto da colonização promoveu a miscigenação racial e cultural e a Umbanda equalizou as crenças e diferenças e a orixá Iemanjá que é a deusa das águas salgadas, da maternidade e da fertilidade, com a Nossa Senhora dos Navegantes que é uma devoção católica a Maria, mãe de Jesus, e é a padroeira dos marinheiros e pescadores.

Desde o início da sua obra, Sigmund Freud buscou a antropologia, as artes, a religião, a mitologia para identificar e depois descrever o inconsciente. Diante de tanta diversidade Freud buscava por algo que nos unisse: o Complexo de Édipo e o inconsciente.

A história das colonizações ocidentais em todo o mundo marca outra forma de narcisismo, o que Freud denominou de: narcisismo das pequenas diferenças. O ódio e a intolerância fazem apontar no outro/diferente, o erro, a falha, a repugnância e por vezes o desejo de aniquilar e destruir. As diferenças
incomodam, iluminam com holofotes e sublinham com sintomas sociais as mais horrorosas atitudes humanas: as guerras, os genocídios, a escravização de humanos. Assim como Freud percebeu que a matéria prima do sonho depende dos restos diurnos, a massa de manobra da hostilidade é a diferença. (Freud, 1921)

Freud nunca renegou suas origens judaicas, apesar de declarar-se agnóstico ou ateu, Freud construiu sua obra fincada em pés sobre origens: origens da sexualidade, do sujeito e origens do social. A dor de Freud por seu pai ter sofrido humilhações por ser judeu, e mesmo todo sofrimento causado pelo antissemitismo
provavelmente tenha impulsionado Freud a compreender o monoteísmo judaico como um sintoma que encobre uma verdade, de que Moisés, o salvador do povo judeu, era egípcio! (Freud, 1939)

¹ Krenak, A. Enquanto seu lobo não vem, 2023. https://sombrio.ifc.edu.br/noticia_campus/19-de-abril-dia-dos-povos-indigenas/

Nas águas dos mares que banham o nosso Brasil, a rainha é Iemanjá e convive em paz com sua companheira, a padroeira do Brasil, a negra Nossa Senhora Aparecida, às duas são atribuídos muitos milagres, e principalmente a capacidade de acolher e proteger como nossas mães boas. Dia 02 de fevereiro a multidão de devotos se unem para glorificar Iemanjá, o mesmo acontece dia 12 de outubro
diante da Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Conviver com as diferenças depende da criatividade e da empatia.