Em uma inusitada e profunda reflexão que nos pede sensibilidade e disponibilidade para sonhar sonhos artísticos e sentir o impacto estético, Marcelo Salles Bueno, membro associado de nossa SBPRP, nos apresenta seu texto: “Afinal, não são as teorias psicanalíticas arte e sensibilidade?”.
Em seu sonho para o projeto da Diretoria de publicações, “Composições: Arte & Psicanálise”, Marcelo vislumbra uma psicanálise onde os artistas precisam emergir de cada um de nós, embalados por nossas produções vindas das profundezas de nossos âmagos.
Vamos acompanhá-lo em sua criativa conjunção?

Afinal, não são as teorias psicanalíticas arte e sensibilidade?
por Marcelo Salles Bueno, Membro Associado
da SBPRP e Membro Efetivo do GEP Rio Preto
Quem não lê Freud e fica estupefado com a beleza de sua obra carece de sensibilidade. Quem estuda Klein e só sente a sensorialidade de suas palavras carece de alcançar o refinamento de sua emotividade. Quem nunca leu Bion e não se sentiu como se estivesse perdido em uma grande exposição de arte contemporânea? É verdade que o impacto de uma obra de arte nem sempre suscita bons sentimentos, haja vista o mal-estar que muitos sentem ao admirar uma obra de Frida Kahlo, por exemplo.
Bion, assim como Freud, Klein, Meltzer, etc., utilizaram da arte como modelos e formas de abstrações para ampliar e aprofundar as suas metapsicologias e, em nenhum momento abandonaram as teorias psicanalíticas, que foram vistas e revistas em profundidade. Do Bion da década de 50 ao Bion dos anos 80, a teoria psicanalítica da transferência, identificação projetiva e complexo de Édipo se mantiveram vivas. É verdade que sofreram transformações, ampliações, mas a base da psicanálise continuou sendo a investigação da mente humana baseada nas teorias psicanalíticas que os grandes autores nos legaram.
Acredito que o psicanalista possa se nutrir das expressões artísticas para compor um arquivo de cenários e figurinos com significados polissêmicos para que o “analista – pensador que sonha o sonho” (Grotstein, 2000/2003) possa digerir e transmitir ao “analista – sonhador que compreende o sonho” elementos nutritivos capazes de se manifestarem nas sessões com nossos pacientes por meio da Rêverie. Penso que o alerta técnico que Bion nos oferece sobre nos abstermos de memória, desejo e necessidade de compreensão diz respeito à função do uso que se faz da compreensão e interpretação do que se observa, e não sobre o tipo de objeto observado. Assim, a leitura de uma obra de arte pode estar presa a concepções fechadas do observador, do mesmo modo pode ocorrer com as teorias. A leitura profunda das teorias psicanalíticas se examinadas em sua essência pode gerar o mesmo impacto estético que uma obra de arte.
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Grotstein, J. S. (2001) Quem é o sonhador que sonha o sonho? Um estudo de presenças psíquicas. Rio de Janeiro: Imago, 2003.
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