A Diretoria de Publicações celebra o ousado e original psicanalista Húngaro, Sándor Ferenczi. Foi dele a sugestão de que Freud analisasse alguns colegas, um iluminado ponto de partida para a expansão mundial que psicanálise veio a alcançar, futuramente instituindo a análise didática e a fundação da IPA.
Carla Cristina Pierre Bellodi, psicanalista, membro associado da SBPRP, é a autora que faz o brinde, através de uma preciosa e sensível resenha contemplativa de aspectos da vida, da personalidade e da obra deste psicanalista de olhar tão humano.
Confira!

Homenagem ao nascimento de Sándor Ferenczi – 07 de julho

por Carla Cristina Pierre Bellodi,
Membro Associado da SBPRP

Hoje comemoramos o nascimento de Sándor Ferenczi, psicanalista da primeira geração, que conviveu com Freud e participou do desabrochar da Psicanálise, especialmente em Budapeste.

Nascido em uma família de ativistas políticos, participou das lutas pela libertação da Hungria, o que deu um significado ainda maior para a entrada da psicanálise no país e trouxe para o centro do seu pensamento a sensibilidade para os jogos de poder e sua relação com o sofrimento psíquico.

Ferenczi se ocupou em desenvolver estratégias para se adaptar aos pacientes que atendia e ficou conhecido como o analista de pacientes “inanalisáveis”. Através de seu célebre texto Elasticidade da Técnica, propôs o que foi conhecido por estilo empático, onde o analista não apenas trabalha escutando o recalcado de seu analisando, mas especialmente está presente com a sua sensibilidade no setting, o “sentir com”.

Demonstrou um entendimento profundo sobre a vulnerabilidade humana e as complexas e traumáticas dinâmicas de poder, desenvolvendo toda sua teoria sobre o trauma e uma maneira própria e consistente para trabalhar com pacientes sobre cuja formação psíquica incidiram situações muito precoces de traumatizações, de abandono e de falha no encontro com o meio onde estavam.

Em tempos traumáticos, onde enfrentamos tantos desafios para nossa humanidade, Ferenczi nos ajuda a pensar o trauma não apenas considerando o agressor como aquele que comete a violência, mas trazendo a importância daquele que se recusa a testemunhar a dor de alguém que se encontra em estado de vulnerabilidade.

Aqui está o cuidado, a convocação e a contemporaneidade da teoria sofisticada do trauma de Ferenczi. Através de sua linguagem da ternura, Ferenczi reconheceu a dignidade e a humanidade do outro que se encontra em posição vulnerável, buscando um sentido para uma existência mais criativa. Tudo isso considerando a pessoa e a mente do analista.

“Existem momentos na análise que a impressão que se tem é de duas crianças igualmente assustadas que trocam suas vivências e que, em consequência de um mesmo destino, se compreendem e buscam instintivamente se tranquilizar”.

A clínica do cuidado, proposta por Ferenczi em seus trabalhos, é uma oportunidade de nos inspirarmos a encontrar possibilidades de diálogos sociais e políticos sobre o trauma e seu tratamento, como parte das inúmeras formas de nos conectarmos com o outro e promovermos a inclusão e a sensibilidade para seu sofrimento.

Viva Ferenczi e sua presença tão terna e atual. Viva nosso “enfant terrible”!

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Ferenczi, S. (1990). Diário Clínico. São Paulo: Martins