Dando prosseguimento ao projeto “Composições: Arte & Psicanálise”, trazemos Denise Zanin, Membro Filiado da SBPRP, que elegeu para esta tecitura, a obra literária: “Escute as Feras”, da francesa Anastasia Martin.
Denise, de maneira estimulante, sonha esta criação artística, que é baseada em fatos reais, como um modelo de certos movimentos do percurso analítico.
Destaca instantes em que o encontro consigo mesmo é experienciado no contato da dupla, em um universo intenso, transformador e de amplitude maior do que a extensão de sentidos que conseguimos alcançar.
Conheçam a sua poética produção!

Sobre encontros
por Denise Zanin, Membro Filiado da SBPRP
Para sonhar
É preciso estar
Deslocada.
Ver entre mundos
A cena íntima
Na solidão Compartilhada
Será que há encontros inevitáveis em nossas vidas? Que farejamos feito bichos, que tememos e buscamos? Que podem chocar dois mundos muito distintos e, ainda assim, tão conectados de maneira misteriosa e profunda? O livro Escute as feras, da antropóloga Nastassja Martin, fez-me pensar em encontros. Os íntimos, perturbadores. Que escancaram feridas ao mesmo tempo em que podem-nas costurar na própria carne. Incluo aí o vínculo que é possível de se estabelecer entre duas pessoas em um processo de análise.
A obra literária narra a história real de um entrelaçamento incomum entre uma mulher (a autora do livro) e um urso. Tomo esta ideia como uma inspiração, um modelo, uma metáfora. O que acontece ao nos deparamos com uma experiência que é capaz de alterar as percepções que temos de maneira drástica, quiçá irreversível?
No início, talvez, embate: “mulher” e “urso”, ambos lutando pela própria sobrevivência. Em situações assim pode existir uma ilusão de sair intacto, não modificado da experiência. O encontro é “apenas” possibilidade de morte. Mordida dilacerante. Desmoronamento. E se o referencial for completamente outro e houver também um beijo (vida!), um beijo de “urso com humana”? Enamoramento. Ponto em que “mulher” e “urso” se aproximam. E se interpenetram. A escritora nos conta que, muito antes de se deparar com o urso, ela já sonhava com ele. Haveria uma área de intersecção, de comunhão, entre mundos diferentes. Um sonho?
Um evento inusitado – quer seja o impensável encontro de uma mulher com um urso, ou o encontro íntimo de dois estranhos – abre frestas entre as realidades. Nenhum sentido estabelecido previamente, a partir de qualquer vértice (ainda que haja os mais abertos e os mais reducionistas), é capaz de apreender profundamente a experiência. E assim são, a meu ver, os momentos transformadores. Há algo que transcende a dupla. Mesmo assim os sentidos precisam ser paridos. No par. E você, já se encontrou com um “urso”?
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