No dicionário paúra significa muito medo, pavor. Quais são os terrores que tanto tememos enfrentar, mas, aos quais, sabemos que se continuarmos vivos estaremos sujeitos? Nascemos chorando, apavorados com a saída do útero materno e a entrada em um ambiente hostil que teremos aos poucos que transformar em algo chamado vida.
Sob estas provocações, a seção Atelier do Pensar do nosso Blog tem a alegria de apresentar o texto “Tremorzinhos e outros medos invisíveis” de Renata Paola Freitas, que é Membro Filiado da SBPRP. A imagem foi criada por Patrícia Sabbag Farah Perucchi, membro filiado, através dos recursos da inteligência artificial.
“Há alguns dias, conversei com uma pessoa que morou no Japão. Ela me contou um pouco sobre a sua experiência e me deu dicas de quando ir, alertou-me que em alguns meses do ano há maiores chances de furacões e tsunamis. Percebo que minha curiosidade sobre o país, naquele momento, subitamente, se reduz e sou tomada por um medo que havia desconsiderado no sonho”…

Imagem construída pela membro filiado Patrícia Sabbag Farah Perucchi, por meio de IA.
O Japão é um país que há algum tempo tem me despertado curiosidade, por ouvir dizer que sua cultura é muito diferente da nossa, do Ocidente. Comecei a planejar em sonho uma viagem para lá, assistindo a vídeos, imaginando as ruas, a comunidade local e o modo de vida.
Há alguns dias, conversei com uma pessoa que morou no Japão. Ela me contou um pouco sobre a sua experiência e me deu dicas de quando ir, alertou-me que em alguns meses do ano há maiores chances de furacões e tsunamis. Percebo que minha curiosidade sobre o país, naquele momento, subitamente, se reduz e sou tomada por um medo que havia desconsiderado no sonho.
Rapidamente, alimentada pelo medo, lembro-me dos terremotos e pergunto a ela em que mês do ano não havia risco desse tipo de catástrofe, para que eu pudesse usufruir, em segurança total, das belíssimas paisagens, cultura e gastronomia japonesas. Sorrindo, ela me responde: “Isso tem o ano todo, não dá para prever com precisão, mas sentir esses “tremorzinhos” faz parte da experiência de ir ao Japão.”
Continua, explicando-me que lá as pessoas são preparadas para isso. Se estiverem em um ambiente fechado, é só correr para debaixo de uma mesa. Se estiverem na rua, é só ficar parado, olhar pra cima, ver se não há nada que possa cair sobre a cabeça e esperar. Percebendo minha cara de assustada e quase minha desistência de conhecer o Japão, ela me acalma, dizendo que os prédios têm molas preparadas para ajudar a aguentar esses abalos sísmicos.
Saí desse encontro um pouco perturbada, repetindo para mim mesma, com certa inquietação, a palavra “tremorzinhos”. Fiquei indignada com sua calma e serenidade ao me relatar essa experiência, tão inacessível para mim, que sou do Brasil e nunca senti um terremoto.
Começo a aceitar que irei conhecer o Japão apenas por meio de filmes, livros e sonhos. Passo a desconsiderar, não sem certa frustração, o algoritmo do Instagram, que descobriu, obviamente, meu interesse pela região e não se cansa de me mandar informações sobre “Roteiros de 15 dias no Japão”.
Uns dois dias após essa conversa, minha curiosidade retorna, de forma ainda mais inquietante. Mas, agora, sobre essas “super molas” capazes de proteger os prédios e consequentemente as pessoas de não serem soterradas. Resolvo pesquisar mais sobre elas.
Descubro que estão presentes não somente no Japão, mas também em outros países que têm maior incidência de terremotos, como Estados Unidos da América e Chile. São estruturas com flexibilidade de movimento, que ficam entre o solo e o prédio, isolando-o e absorvendo o impacto do tremor. O objetivo não é impedir completamente os danos ao edifício, mas evitar que a construção desabe sobre as pessoas.
Usando esse modelo, conjecturo que a função analítica é um belo exemplo do que vou chamar de “mola mental”. Nesse sistema, o analista funciona como um receptor do impacto provocado pelas sensações e percepções da mente do analisando e atravessa com ele as turbulências, possibilitando que o “edifício da mente” não desmorone.
Se houver paciência da dupla, assim como durante o terremoto, sensações inicialmente aterrorizantes podem ser elaboradas, evitando o soterramento de ambos.
A mola é uma estrutura intermediária entre o prédio e o solo, a qual acompanha o edifício durante o abalo sísmico. Se ela fosse constituinte e grudada ao prédio ou ao solo, sem mobilidade e sem capacidade de interação com um ou com o outro, ambos desabariam durante um terremoto.
A mesma ideia podemos estender para o sistema de molas mentais. A função analítica é, dentro desse modelo, uma estrutura situada entre a mente do analista e a do analisando, mas é fundamental que possa ser flexível e se movimentar durante o abalo sísmico, sem ficar aderida a um ou ao outro, pois haveria risco de colapso.
Não é possível controlar a intensidade com que as placas irão se encontrar. Durante a análise, não há como planejar o impacto que aquilo que emerge irá causar na dupla analítica. Tampouco amenizar a intensidade do encontro entre duas mentes.
O único jeito é lidar com o terremoto e sua intensidade e desenvolver formas mais efetivas de atravessar esses eventos, quando ocorrerem. Em analogia, a partir das turbulências emocionais, é possível alcançar novos e cada vez mais complexos níveis de observação do indivíduo e do mundo e construir ferramentas singulares que ajudem a dar conta da vida e da natureza de ser o que se é.
Assim como as molas não conseguem evitar totalmente danos ao edifício, mas o mantém sem desabar, não é possível excluir a dor inerente ao processo de análise. A partir dela, o impacto inicial das percepções pode ser transformado e ampliar a capacidade de pensar.
A flexibilidade e o movimento tanto dos edifícios como da mente é o que os mantém vivos. A percepção das vulnerabilidades, que são inevitáveis, é o que possibilita o desenvolvimento tanto da engenharia como do aparato mental capaz de dar conta dos estímulos externos e internos. Se as precariedades não são consideradas, pode existir uma falsa impressão de que o edifício ou a mente são indestrutíveis, aumentando o risco de desabamento, momento em que não há mais estrutura para ser contemplada. As molas físicas e mentais (função analítica) podem ajudar o prédio e a mente a não colapsarem.
Assim como o Japão e outros países vulneráveis a esses eventos da natureza só puderam desenvolver estruturas e ferramentas complexas capazes de dar conta dessas intempéries após passar por elas, só há a possibilidade de se criar um aparato mental para passar por situações dolorosas, inerentes à natureza humana, ao se expor à experiência.
É possível usufruir uma vida verdadeira ao ampliar o arsenal de ferramentas para passar por portais de turbulência, correndo o risco de sempre recuar para estados anteriores de aparente segurança, em que aparentemente o medo não existe. Eu queria muito ir ao Japão, mas tinha desconsiderado os tsunamis, furacões e terremotos. Os riscos já existiam, estavam apenas invisíveis para mim. Assim como os “tremorzinhos”, que estão sempre presentes, mesmo que em um primeiro plano de observação, não estejam tão nítidos.
Agora, posso entender e ver sentido na frase: “mas faz parte da experiência de ir para o Japão sentir esses tremorzinhos”. Não há experiência, nem analítica, nem de estar vivo, sem esses “tremorzinhos”. Se, um dia, eu quiser conhecer o Japão, vou precisar encarar o risco de duas placas tectônicas se encontrarem durante as minhas férias.
Voltei a sonhar em viajar para o Japão. Qualquer coisa, corro para debaixo de uma mesa!
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