A Diretoria de Publicações destaca hoje, no projeto “AFETOS: PASTOREIROS DE ALMAS”, reflexões acerca da amizade.
Segundo a escritora e filósofa francesa, Simone Weil: “A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude).”
O vínculo da amizade pode assim, guardar importante função vitalizadora e de amadurecimento para vida psíquica. De maneira enriquecedora, a membro associado da SBPRP, Maruzza Tereza Cerchi Borges Fonseca, pesquisa e explora, ao seu modo de ver, este vínculo!
Confira!

Amizade

por Maruzza Tereza Cerchi Borges Fonseca,
membro associado da SBPRP

– Meu nome?

– Sim.

– Daniella, com dois Ls. E o seu?

Maruzza, com dois Zs. (rimos juntas).

Assim nasceu minha primeira experiência de amizade. Tínhamos apenas uns 7 anos e competência suficiente para descobrirmos os embriões de uma verdadeira amizade. Difícil desvendar as origens deste complexo sentimento. São fenômenos da ordem do enigmático.  O fato é que, de repente, alguém se destaca da multidão, tornando-se único e essencial. Considero a amizade uma espécie de irmandade “escolhida” intuitivamente.  As almas se cruzam e se alimentam, sem pedir nada em troca, a não ser, a boa companhia.

Segundo Pontalis (2013), um amigo é algo raro, propiciador da capacidade de proteger-nos dos tormentos do amor, nos afastar da fúria e nos fazer recuar diante da morte.  Para Rubem Alves, a amizade seria o encontro de duas solidões!  Com Aristóteles temos o alerta de que nem sempre as coisas transcorreriam favoravelmente, por existirem três formas de amizade: as baseadas no interesse ou utilidade, no prazer e no caráter. O filósofo é enfático ao designar apenas a última como “Amizade Verdadeira”. Na atualidade nos deparamos, em maior proporção, com relações líquidas e utilitárias. Encontro em Winnicott as raízes possíveis para tal fato. Para o autor, a experiência de mutualidade, teria a ver com a comunicação afetiva mãe-bebê, constituindo a forma mais primária de intimidade, base para todas as posteriores. Certamente, as pessoas incapazes de construírem relações verdadeiras teriam sofrido desencontros precoces. Algumas pessoas dizem não existir “amizade verdadeira”, afirmando ser um conceito romântico. Compreendo, pois, realmente, a grande maioria nunca chegará perto de vivenciar tal sentimento. Também sabemos que apenas encontramos aquilo que acreditamos. Seria um ato de “Fé” que colocaria em movimento nossos sonhos e ações, sendo, justamente, a capacidade de sonhar que nos impulsionaria em direção ao máximo de beleza possível de cada experiência real. Revelarei uma intimidade: adoro cartas! Segue trechos de uma carta do escritor Zola para o amigo Cézanne (com dois Ns):

…Muitas vezes temi perder você,

Mas hoje isso me parece impossível.

Nos conhecemos muito bem para nos separarmos…

Você me salvou das lágrimas,

Você me protegeu…

Felizes são aqueles com memórias.

Você é minha juventude, Paul…

Você se lembra dos dias em que a vida era só um sonho?

Imagine que estamos novamente sós em algum lugar,

Dois amigos que se entendem pelo olhar.

Reencontre sua coragem,

Pegue de novo seus pincéis,

Limpe sua mente,

Deixe sua imaginação vagar.

Tenho fé em você!