A Diretoria de Publicações, homenageia hoje, no projeto “AFETOS: PASTOREIROS DE ALMAS”, aqueles que experienciam laços intensos e únicos da relação com os netos.
A força da paixão envolvida na relação entre avós e netos, levam muitos a cantar homenagens.
“De todo amor que eu tenho.
Metade foi tu que me deu.
Salvando minh ‘alma da vida
Sorrindo e fazendo o meu eu”
– Maria Gadú
“O meu velho invisível Avôhai
O meu velho e indizível
Avôhai”
– Zé Ramalho
“ O autoacalanto de Benjamin
Que é, por enquanto, o caçula de mim
É um deslumbramento
Emula o canto de um querubim, curumim…”
– Caetano Veloso
Entre nós, Fátima Maria Cassis Ribeiro Santos, Membro Associado da SBPRP, é quem compartilha conosco uma sensível e inesquecível vivência, expressiva da potência deste amor.
Apreciem!

Entre avós e netos-uma experiência emocional
por Fátima Maria Cassis Ribeiro Santos,
Membro Associado da SBPRP
Naquela casa, o quarto dos avós foi se tornando ao longo dos anos, espaço de encontro entre eles e os netos. Mesmo sendo avós com boa capacidade física, depois do pique-pega, do esconde-esconde, pular amarelinha, havia convites como “vamos assistir a um filminho”, ou “vamos brincar de o que é, o que é?”
Jeito de dar uma pausa para descanso.
Avós e netos se aninhavam na cama, que crescia como continente, a cada chegada de um novo neto.
Lugar de nascimento de conversas, muitas risadas, curiosidades sobre o mundo pipocavam na vida dessa família de significativa experiência afetiva.
Um dia, o avô perguntou à neta caçula de 5 anos:
– Você dorme de olho aberto ou fechado?
Ela hesitou um pouco e respondeu que era de olho fechado.
O avô continuou:
– Ué, se você dorme de olho fechado, como você faz para enxergar o sonho?
Silêncio.
A pequena rodou os lindos olhos esverdeados para um lado, para o outro, e um flash iluminou seu rosto. Disse: é a imaginação!
Os avós entreolharam-se perplexos. Uma onda de não sei o que, atingiu a alma da avó.
Ela, que há tempos teimava em pensar que sentimentos eram aqueles que entremeavam sua relação com os netos, sentiu-se vivendo um “instante de eternidade”. Imensidão. Via láctea.
A neta ajudou-a no nascimento da palavra que fazia jus ao que sentia.
A intensidade dessa experiência afetiva foi tanta, que a avó ficou com medo. Medo das transformações que há na vida.
Respirou fundo.
Sentiu a turbulência.
Esperou.
Depois, pôde pensar.
O poeta já dizia, “que seja infinito enquanto dure”.
Freud, em seu artigo sobre transitoriedade, escreveu “o valor da transitoriedade é o valor da escassez do tempo”.
Os avós que habitam “instantes de eternidade” sabem disso.
Sabem também que esses instantes vão sobreviver em suas mentes enquanto estiverem vivos e também na memória sonho de seus netos.
Como Cazuza, que fez a música Poema, dedicada à sua avó:
“Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo…”
A todos os avós, o meu abraço compartilhado de afeto.
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