Ao redor do mundo, quase como que num novo modelo, tem aumentado o número de mães que criam seus filhos sozinhas, como chefes de família. E se elas são sozinhas para ganhar o sustento dos filhos, e cuidar deles, sem auxílios, as crianças se desenvolvem de forma autônoma, em carência tanto das mães, ocupadas, quanto de pais, desconhecidos. A pergunta óbvia é: onde andam esses pais? Por que o desinteresse em conhecer os filhos que geraram?

“Quando eu crescer, pai, quero ser igual a você…” onde então essa imagem, para a criança se mirar? “queria correr para teus braços e os encontrar de novo me abraçando e alçando vôo comigo em seus braços fortes…” onde esses braços que seguram? “queria esperar você no portão chegando do trabalho…” onde esse exemplo de ida e volta com a esperança do reencontro? “queria ver você trazendo de surpresa o quadro com a pintura feita por alguém da foto da minha mãe…” onde aprender sobre esse amor entre homem e mulher?

Em um sensível texto, onde a obra de Michelangelo Buonarroti é acompanhada pelas palavras afetivas de um conhecedor de arte, Paulo M. M. Ribeiro, psicanalista didata de nossa SBPRP e um pai sempre presente, reflete sobre a função paterna. Com ele, ampliamos nossas ideias a respeito da tarefa paterna como geradora e continente de inúmeras emoções e sentimentos.

Nossas homenagens a todos os pais presentes, que com seu carinho, força e segurança, se mantém ao lado de seus filhos e os ajuda nessa difícil tarefa de auxiliar a crescer em respeito e AMOR.

Quando nasce um pai?
Breves reflexões sobre a Função Paterna


por Paulo Ribeiro, Membro Efetivo
com funções didáticas da SBPRP

Notável como a arte imita a vida: é impressionante a quantidade de pinturas de Madonas nas quais, quando a Virgem Maria está sozinha com Cristo em seu colo, ambos parecem estar solitários e deprimidos. Já quando há a presença do pai, José, a cena muda e há emoções mais vivas como
preocupação, carinho, ternura etc. O pai, ou a pessoa nessa função, inicialmente tem um papel coadjuvante; como na Sagrada Família do Michelangelo, ele fica nos ‘bastidores’, exercendo a função de “holding” da mãe (quase se confundindo com ela, mas atrás, no backstage). É ele quem dá a sustentação emocional necessária para a mãe executar a trabalhosa tarefa de cuidar do bebê. E essa é uma tarefa ativa e dolorosa: ele precisa conter e elaborar seu sentimento de exclusão/solidão, abrindo espaço para
a saudável “simbiose mãe 㲗 bebê” (1+1=1). Para tal, suas demandas edípicas inconscientes devem estar suficientemente bem elaboradas, ou ele passará a competir com o filho pelos cuidados da esposa/mãe, tornando-se uma espécie de ‘rival’ do próprio filho.

Num segundo momento, quando o ego do bebê já se encontrar mais fortalecido através das “funções maternas”, o pai gradualmente assume seu protagonismo, mitigando o ‘cordão umbilical mental’ existente entre a mãe e o bebê, iniciando o longo e delicado processo de “separação-individuação” descrito por M. Mahler (1982). Empregando um modelo geométrico para ilustrar a complexidade desses movimentos emocionais, a linha reta mãe↔bebê se torna um triângulo pai ↔ bebê ↔ mãe; de uma reta, que separa apenas um lado do outro, alcançamos um triângulo que, além dos seus três lados e três vértices, ganha as dimensões dos espaços interno e externo. Assim, a criança expande seu espaço mental, amplia as capacidades de trocas emocionais e desenvolve suas características singulares; a mãe, por sua vez, gradativamente retoma suas outras funções na vida (como esposa, profissional etc.).

Em outras palavras, o pai inclui-se como um “terceiro” na relação, oferecendo ao bebê a oportunidade de ampliar seu manancial de experiências emocionais (1+1=3). Ele deve apresentar-se de maneira benigna e vigorosa, como um objeto bom a mais para as identificações do filho. Esta interposição amplia e complexifica os mundos interno e externo da criança, do casal e da família e o amor que circula entre os vértices do triângulo, se multiplica.

Enfim, quando um pai ‘nasce’, todos crescem!

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Referência:

Mahler, M. S. (1982). O processo de separação-individuação. Porto Alegre: Jorge Zahar.

Imagens retiradas da internet: