O Projeto “Celebrando” traz hoje uma homenagem a Donald Meltzer, psicanalista, autor de importantes produções científicas e com ampla experiência clínica, tendo trabalhado com análise de crianças, adolescentes, adultos, grupos e famílias.
Meltzer ressalta ser a prática clínica mais avançada que a teoria psicanalítica. Por isso mesmo, o trabalho clínico e de supervisão foram focos principais de seu interesse, tendo sido convidado e recebido para
ministrar seminários ao redor do mundo, incluindo o Brasil, com supervisões e conferências em São Paulo e Porto Alegre.
O psicanalista da nossa SBPRP, membro associado, Luciano Bonfante, com sensibilidade e propriedade de um estudioso de longa data de sua obra, é quem faz esta homenagem. Ele nos conduz a um passeio, por onde elegeu alguns aspectos da produção de Meltzer, finalizando com curiosidades e um rico pensamento do autor.
Confiram!

Esta nota celebra o psicanalista Donald Meltzer, nascido em Nova Iorque em 15 de agosto de 1922. Nos anos de 1950 mudou-se para Londres para se analisar com Melanie Klein, depois filiou-se à Sociedade Britânica de Psicanálise. Posteriormente, obteve a cidadania inglesa. Faleceu em Oxford no dia 13 de agosto de 2004.

É inviável discorrer aqui sobre sua obra, mas é possível reafirmar sua importante contribuição para a Psicanálise com conceitos originais, como Conflito estético, Transferência pré-formada, Colheita da transferência, Seio latrina, Identificação intrusiva, Identificação adesiva, Objeto Combinado e Claustro.

Como pós-kleiniano, seu modelo de mente traz a terminologia kleiniana padrão, como a fantasia, a separação, a identificação, as posições paranoides e esquizoides e os objetos parciais.

Há inúmeras publicações com sua teoria e seminários na Europa e América Latina, incluindo São Paulo. Meltzer sempre foi interessado na transmissão da psicanálise, o que exercia habilidosamente. Conhecia mitologia, literatura, poesia e filosofia, enriquecendo seus textos com referências.

Segundo Meg Harris Williams (2017), Meltzer era “imaginativo” no consultório e não na escrita, embora encontremos passagens poéticas em sua obra. Mesmo tendo trabalhado com pacientes difíceis, esquizofrênicos, autistas, teve maior interesse no “estudo do desenvolvimento normal “, que considerava mais completo e gratificante. Um detalhe curioso contado por essa autora: Meltzer atribuía tamanha importância ao sonho do paciente para a análise, que poderia interromper o processo analítico e encerrar o relacionamento com o analisando em caso de sentir a recusa em cooperar não trazendo sonhos”.

Leitor sensível de Bion, Meltzer concebia a psicanálise como uma arte-ciência em estágios iniciais. Em suas palavras: “Tenho certeza de que a exploração é o mais importante, o aspecto mais artístico do trabalho. A crescente identificação do paciente com o método exploratório do analista é uma base muito mais importante para o desenvolvimento gradual da capacidade auto analítica do que qualquer esforço no sentido da formulação” (Dream Life, p. 147).

Um viva a Donald Meltzer, a quem ainda é devido uma biografia à sua altura.