Em nosso projeto “Composições: Arte & Psicanálise” deste mês de agosto, Ana Márcia Vasconcelos de Paula Rodrigues, membro associado da SBPRP, nos apresenta seu olhar, sonhos e interessantes associações a partir de seu contato com a a escultura “Elevazione” de Giuseppe Penone.
Esta obra, uma coexistência de arte e natureza, possui no seu centro um enorme tronco natural transportado. O artista utilizou-se também de galhos ficcionais que saem da raiz deste tronco central e se apoiam sobre estacas metálicas instaladas nas laterais. Lado a lado com estas, cinco árvores foram plantadas.
Há um desafio à noção estática de escultura, quando o artista Penone, nos anuncia a respeito de um longo tempo de espera até que a escultura se complete. A previsão é de que Elevazione precisará de pelo menos 30 anos para tal.
Num tempo mais longo, se as árvores laterais crescerem o suficiente, elas englobarão as estacas e elevarão a árvore escultura, fazendo do título uma realidade em ação!
Explorem as duas belezas: a arte e a escrita de nossa colega.

Composição e Arte
por Ana Márcia Vasconcelos de Paula Rodrigues,
Membro Associado da SBPRP
Uma árvore suspensa paira acima do extenso gramado. Vista à distância seu tronco se ergue alguns metros acima do solo desafiando a força da gravidade. Por um instante, de volta à primeira infância, me encanto com a “magia” da árvore flutuante sobre o campo verde.
Ao me aproximar e olhar por debaixo da árvore vejo na sua base suspensa galhos que emergem como se fossem as raízes, o que, pelo seu naturalismo, não parece ser uma escultura em bronze. No entorno, estacas metálicas fincadas na terra fazem a sustentação dos galhos e ao lado de cada estaca está plantada uma guaritá, como um duplo da estaca. Na medida do crescimento natural das guaritás, ao longo do tempo as estacas vão sendo incorporadas elevando o tronco, e as copas das altas guaritás vão compondo a cúpula verde da árvore.
Elevazione, de Giuseppe Penone, é a única obra do escultor italiano exposta no Brasil e se encontra no Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico Inhotim. As obras desse artista são uma celebração à natureza e à inseparabilidade homem/natureza.
Enquanto percorro o espaço livre da base da escultura, entre sua base suspensa e o solo, uma sensação de leveza me faz sentir tirar os pés do chão e embalar conjecturas/sonhos. Se a escultura tem um eixo central fixo, duro, estático, não é ele que modifica a obra, mas as árvores naturais do entorno, que movimentam o centro imóvel de aço e bronze. E o que promove a expansão e crescimento da árvore de nossa vida psíquica? A formação de um espaço livre que vai sendo construído ao longo da vida e de uma análise, sustentado na inconstância, incompletude e fluidez de quem somos?
A obra de arte como espaço-tempo transicional (Winnicott) para o nascimento de brotos de pensamentos/sentimentos, sustentados nos altos e baixos da vida e da emoção humana, para o sentir-se psiquicamente vivo.
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Fotos por Eduardo Eckenfels via inhotim.org.br
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