por Luiz Celso Castro de Toledo, membro filiado da SBPRP

Em julho desse ano, os administradores do Facebook anunciaram a exclusão de uma série de páginas brasileiras que se dedicavam à disseminação de notícias falsas. A decisão da empresa foi amplamente divulgada. Vários jornais, sites de notícias e páginas sobre política foram excluídos do Facebook.

O debate sobre perfis e contas que alardeiam informações falsas ou duvidosas é internacional. O tema tem sido amplamente discutido após as últimas eleições presidenciais norte-americanas. Há quem sustente que a eleição nos Estados Unidos foi manipulada (para os interessados, há o documentário: “Driblando a Democracia: como Trump venceu”). Em agosto, o Facebook voltou à carga e excluiu mais grupos, contas e páginas. Novamente, os motivos alegados diziam respeito à divulgação de notícias falsas, venda de “seguidores” e “curtidas”.

No Brasil, estamos lidando atualmente com as consequências da divulgação em massa de posts contrários à vacinação de crianças. Já há uma preocupação entre os profissionais de saúde pública com casos de sarampo e poliomielite, bem como com a queda expressiva nos índices de cobertura para várias vacinas.

Não sei se os gestores do Facebook estão bem intencionados ou não, mas simpatizo com a tentativa de desmascarar as redes de manipulação que se multiplicam pela internet. Entretanto, penso que a questão em jogo no fenômeno das fake news não se restringe a identificar e punir quem as fabrica e dissemina. Afinal, há o outro lado, o das pessoas que recebem, aceitam e compartilham fake news. Sem elas, as notícias falsas não teriam impacto social algum. E não são poucas! No Brasil, as páginas desativadas do Facebook contavam com mais de meio milhão de seguidores.

Fonte: pixabay

O que motiva um grupo tão expressivo (acreditando que esses dados sejam confiáveis…) a seguir e alardear páginas de matérias falsas?

– A ignorância, a falta de crítica e discernimento entre o verdadeiro e o falso – alguém poderia responder. Sim, provavelmente, mas não haveria algo mais?

Além de disseminar informações falsas, o fenômeno global das notícias falsas atende a um desejo frequente e banal: de que o mundo seja e se comporte tal qual a imagem que fazemos dele. Nesse aspecto, o Facebook parece ter sido criado sob medida. A cada página que leio ou “curto”, outras publicações parecidas são disponibilizadas em minha tela. A cada “amigo” que bloqueio por ter opiniões que me incomodam, restrinjo o meu círculo de relações, ficando apenas com aqueles com quem tenho alguma afinidade ideológica. Em pouco tempo, o site aprende sobre minhas preferências e interesses, então me apresenta a notícias (falsas ou não) e textos que corroboram aquilo que já penso. A variedade de opiniões desaparece ou se torna marginal.

A estratégia é útil para a empresa: se, ao abrir o Facebook, encontro temas que me agradam, provavelmente retornarei outras vezes. Se fosse o oposto, talvez eles não tivessem sucesso em manter usuários. É a velha história, “narciso acha feio o que não é espelho”. Nessa lógica sedutora, a verdade fica em segundo plano, o que interessa são o prazer e o reasseguramento que sinto ao encontrar tão bem representadas as minhas preferências, amores ou ódios.

Por fim, uma digressão.

Quando começou a atender e a desenvolver o que viria a se tornar a Psicanálise, Freud encontrou algo que despertou sua curiosidade: ao se depararem com pensamentos e sentimentos desagradáveis e dolorosos, seus pacientes criavam núcleos mentais de pensamentos destinados ao ostracismo. Se uma moça se apaixonava, por exemplo, pelo noivo da irmã falecida (e percebia, em si, um traço de rivalidade cruel), era melhor esquecer logo do assunto e levar a vida adiante, como se nada tivesse acontecido. Diante da turbulência emocional causada pelo surgimento de um sentimento verdadeiro (mas moralmente inadequado), o caminho seria reprimir e esquecer. O mais rápido possível. Só que esse processo tinha um custo: a eclosão de sintomas histéricos, eventualmente graves e incapacitantes.

A preferência pelo que é falso e a evitação de verdades dolorosas não são características exclusivas do Facebook, da internet ou de grupos de manipulação político-partidária. Visto desse prisma, o sucesso das fake news apenas reedita, com outra roupagem, um aspecto humano antigo e persistente: a escolha (consciente ou inconsciente) pelo que é falso, como expressão da nossa dificuldade de lidar com fatos, sentimentos e opiniões que nos contrariam, abalam a vaidade ou fazem duvidar de nossas crenças.