No dia 13 de abril, o Cinema e Psicanálise de Franca apresentou o filme “Cem Escovadas antes de Dormir”, com comentários de Maria Letícia Wierman, membro associado da SBPRP.

Leia abaixo o texto sobre o filme de Fátima Cassis, também membro associado da SBPRP e integrante da comissão do C&P de Franca:
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O que fazer para voltar à vida quando nos perdemos de nós mesmos? Quando o olhar do outro, amado e distante, já não encontra com o nosso ? Que caminho trilhar quando sentimos habitar as profundezas da dor, da humilhação, da solidão, do ódio e desamparo?
E se pensarmos que experiências desta magnitude afetiva podem acontecer a uma adolescente apaixonada, ansiando se tornar mulher, na urgência de realizar um grande amor?
Que tipo de caos é esse, quando esta mesma adolescente, Melissa,15 anos, pode contar como retaguarda afetiva somente sua amiga Manuela e sua avó Elvira, e na ausência delas, seu inseparável diário para narrar e inscrever sua dor?
Presença virtual, seu pai ausente, e o olhar envidraçado de sua mãe não a protegem de se envolver com Daniele, um rapaz que a usa como objeto descartável, se tornando totalmente refém de seu desejo narcísico.
Como diz Gilberto Gil em sua música “Tenho Sede”, “meu coração só pede o teu amor/se não me deres posso até morrer”, Melissa insiste neste relacionamento tóxico, negando os primeiros sinais de perigo. Adentra um mundo perverso, onde relações amorosas são trocadas por relações de poder, o que manipula e outro que é manipulado em seus desejos, sonhos, em seu direito inalienável de ser si mesma.
Triunfando sobre a humilhação e o ódio sentidos mas não pensados, Melissa se identifica com seu agressor, se embrenhando por relações sado-masoquistas, causando a si própria grande dano psíquico e social.
Através de memória afetiva tenta se resgatar, e, como ensinara sua avó quando sentia dor de amor, escova seus cabelos cem vezes, até alisá-los, na tentativa mágica de se tornar outra pessoa e também como forma de lidar com sua angústia de aniquilamento. Tentou. Não deu certo. No mundo escuro em que se lançou, parecia não haver saída.
O que verdadeiramente nos salva da violência do outro em nossa direção, e da nossa, em direção a nós mesmos? Cada vez mais me certifico de que só tendo sorte e talento em encontrarmos um olhar amoroso, que nos acolha, nos resgate e nos faça acordar para o amor, o auto cuidado, que também existe dentro de cada um!
O amor vincula, florescendo criatividade para sairmos de situações tão sofridas. Melissa conseguiu se encontrar com um Outro, e consigo própria, resultando não só aprendizado de experiência tão dolorosa, mas também escrevendo suas memórias no livro “Cem escovadas antes de ir para cama”, com lançamento em 2004.
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