No dia 08 de junho, o C&P de Franca apresentou o filme “Tempos de Paz”. Leia abaixo o comentário de Débora Mellem:

Tempos de paz e relfexões

Débora Agel Mellem

Prosseguindo no projeto “Especial Interações”, o Cinema e Psicanálise de Franca exibiu o filme “Tempos de Paz”, comentado por Débora Agel Mellem, psicanalista e membro associado da SBPRP, e Ulisses Pinheiro Lampazzi, professor, poeta e mestre em História do Brasil.

Neste evento, fizemos uma homenagem ao cinema brasileiro, através de um belo filme dirigido por Daniel Filho e que traz um elenco de atores fantásticos, como Tony Ramos e Dan Stulbach.

O enredo ocorre no final da ditadura de Getúlio Vargas, no dia em que houve a anistia de presos políticos, e apresenta o encontro de Segismundo, um ex-torturador, chefe da imigração da alfândega do Rio de Janeiro, com Clausewitz, um artista polonês que deseja imigrar para o Brasil. O diálogo que se desenvolve entre esses homens tão diferentes e a emocionante aproximação dos dois expressam o que há de terrível, e também de belo, em nossa humanidade. No decorrer da trama, a relação de poder entre os personagens transforma-se, surgindo o sofrimento de ambos: um marcado pelas experiências sórdidas de seus atos de tortura na polícia política e o outro, quase devastado pela violência vivida na guerra, em busca de um lugar pacífico para ter uma nova vida.

Com um final surpreendente, o filme expressa o valor da arte como um instrumento de transformação pessoal, que faz brotar emoções e desperta a consciência de si e do mundo. A partir do cinema e deste filme “Tempos de Paz”, também podemos fazer reflexões e expandir a nossa consciência sobre a história política do Brasil em 1945 e hoje, os fatores que favorecem o desenvolver da subjetividade humana e aqueles que a aprisionam, gerando alienação e violência.

Como inspiração, trago a prosa poética de Ulisses Lampazzi:

É CHEGADA A HORA?

Sinto úmidos os pés do sangue rolado neste chão vermelho, nesta terra roxa. Os índios vendo seus filhos assassinados, junto ao sangue há lágrimas. Lágrima e sangue. Os pretos escravizados, a dor, a chibata, o coração mutilado de saudade. Lágrima, sangue, suor e saudade.

Vou no rasante do meu delírio tropical, os rostos tremulam feito sombras, sucessivamente e em tal rapidez que mal os reconheço, só a dor retorcendo essa pele bonita, essa beleza vertida pelos bueiros, pelos buracos negros. Vou cruzar a longa noite do meu país continental apenas banhado pela prata de lua e a esperança trêmula, amarela, uma vela carregada pela escuridão dos séculos. Fito o mistério dessa gente de Pixingas, Villas-Lobos, Gracilianos, Clarices. Eu não sei de nada! Manos Browns. De onde esse ódio, esse amor, esse fogo queimando todo o pau-Brasil e mais, queimando a íris dos meus olhos diluídos em suas maravilhas?

Ah Brasil! Sonhei um país de mesa gorda, sem pecado a não ser a fome e o silêncio. Sonhei que eu pudesse tacar suas cores nas paredes brancas desse Ocidente canibal e fratricida. Quis dar caju, mamão e um abraço irmão aos estrangeiros cansados de guerra, mas quando vi, a guerra era aqui. Militares pisoteando o ventre de mulheres grávidas. Mataram nossas sementes. Torturadores violentaram poemas e espíritos. País que desperdiça gente, reduzidos a animais se cruzando nas sombras. Olá, como vai? Eu vou indo, e você? Tudo bem?

Brasil, como o futuro demora a chegar! Aqui todos somos periferia! E aqui deste lado da margem, deste lado da ponte, do viaduto, deste lado do peito, deste lado da mágoa, eu declaro, Brasil, que o centro do mundo é aqui. Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Rio grande do Sul, tudo aqui é o centro do mundo. O índio queimado fica no centro do mundo. As crianças sem merenda são o centro do mundo. O Corcovado, Ipanema, Carandiru, Pedrinhas, Capão Redondo, Vila Santa Cruz.

É chegada a hora? Falar com a nossa própria língua, dizer tudo com a nossa própria voz?