No Dicas de hoje trazemos um texto de Maria Auxiliadora Campos, membro efetivo da SBPRP, que saiu no Boletim interno nº 76, em setembro/outubro de 2014:

Estive por 20 dias na Índia (Delhi, Agra, Jaipur e Uidapur) e no Nepal (Kathmandu) o que permitiu apenas uma visão panorâmica dos locais visitados.

Vivenciei a Índia como um “caos organizado”, um caos “harmônico”. No Brasil, com raras exceções, a periferia está longe dos nossos olhos. Na Índia e Nepal não, beleza e feiura, pessoas e animais, luxo e lixo, bons e maus cheiros convivem juntos. Tudo é vivido muito intensamente. O trânsito faz parte desse caos, onde ônibus, carros, riquixás, tuk-tuks, milhares de pessoas, vacas passeando tranquilamente ao som de um “buzinaço” infernal convivem juntos, e pasmem, sem colisões. Ouvi do guia que para ser motorista na Índia é necessário um bom freio, uma boa buzina, muita paciência e um tanto bom de sorte.

É fascinante a beleza dos templos, mesquitas e palácios e também a delicadeza e riqueza com que o mármore, a madeira, o barro, as esculturas e as peças incrustadas com pedras semipreciosas foram trabalhados por indianos, árabes e persas.

Imagem: Acervo de Maria Auxiliadora

Achei mágico o colorido das vestes, cores geralmente fortes, mas compostas com harmonia na combinação de cores, nos degradés que exploram uma mesma tonalidade, nas composições de desenhos diferentes numa mesma vestimenta, na delicadeza com que se usam miçangas, linhas, fitas, pedrinhas maiores, etc, etc. Basta olhar com detalhe uma mulher vestida de sári ou usando um punjabi (conjunto composto de uma bata longa, uma calça e uma echarpe também longa). No seu vestir, a mulher indiana parece celebrar a vida, louvar seus deuses, com seu colorido, seus brilhos e adornos em seus olhos, testa, nariz, orelhas, pescoço, braços, antebraços, tornozelos, pés e dedos das mãos e dos pés.

Imagem: Acervo de Maria Auxiliadora

O modelo indiano de mulher nada lembra o modelo ocidental que valoriza a magreza. Não vi indianas expondo ou insinuando seu colo, nem usando roupa sem manga. Os seios jamais ficam à mostra ou são insinuados. Os sáris têm como parte superior um top e os 6 metros de tecido com os quais ela se envolve, geralmente permitem ver parte das costas ou do abdômen, o que não parece constrangê-las quer sejam jovens ou idosas.

Também me chamou a atenção o rosto sério da mulher comum, marcado de sol, os calcanhares mostrando fissuras, o pouco sorriso. Pareciam cansadas, sobrecarregadas. Um contraste com o colorido das vestes.

Curiosidade: por onde andei não vi lojas de roupa íntima feminina. Na Índia, pedi ao guia que me levasse a alguma loja e ele sempre desconversava. No Nepal, resolvi procurar uma. Visitei dois pequenos shoppings e apenas no fundo de uma loja encontrei, numa pequena e discreta caixa, calcinhas bem sensuais. Para turistas? Como explicar tal fato? Descrição? Repressão? Proibição? Questões culturais? Pouca influência ocidental? Corre solto que a mulher indiana não usa roupas íntimas. Tal comportamento estende-se a todas as castas? Bom tema para pesquisa…

Jamais esquecerei o sabor dos pães da Índia e do Nepal. O sabor do naan indiano, em sua simplicidade, será lembrado por mim tal qual as madeleines ficaram impregnadas na memória de Proust. A culinária indiana tem cheiro e gosto fortes. Curry e pimenta de vários tipos não faltam. Não se come carne bovina, apenas frango e cordeiro. A maior parte da população é vegetariana.

Estrangeiro não deve beber a água que os nativos bebem nesses dois países. A recomendação é usar água mineral até para escovar os dentes.

Apesar da pouca organização, surpreendi-me com o rigor com que a programação foi cumprida pela agência de turismo contratada. Nos hotéis, a qualidade de atendimento dos nativos era indiscutível. Tom baixo de voz, sorriso, delicadeza, prontidão eram a tônica. Pensei com meus botões: influência da colonização britânica?

É surpreendente o número de funcionários indianos que nos atendem nos hotéis e restaurantes. Literalmente, se tivermos 10 malas, rapidamente surgem 10 indianos enfileirados para carregá-las.

Com exceção para o intenso assédio dos vendedores de rua com seus produtos artesanais, na Índia, ao contrário do Brasil, passado o impacto da chegada, embora às vezes confusos no meio de tanto movimento e tanta gente, sentimo-nos tranquilos nas ruas. Nem parece o Brasil atual, com esse clima de intensa insegurança social, violência e impunidade. Claro que na Índia e no Nepal, assim como em outros países, há outras formas de violência, mas estou me referindo apenas à situação nos espaços públicos.

Imagem: Acervo de Maria Auxiliadora

Os dias que passei na Índia precederam as eleições para primeiro ministro e claramente mobilizavam a população. Ouvi muitos depoimentos a respeito. Há mais de 100 anos descendentes diretos e indiretos de Ghandi estavam no poder e os indianos, em sua maioria, desejavam mudanças na condução do país. Narendra Modi, o eleito, representava para eles a esperança de dias melhores. Já o Nepal, até há seis anos uma monarquia, estava se iniciando no modelo democrático. País muito pobre e de infraestrutura bem precária, povo bastante simpático e simples.

Tanto a Índia como Kathmandu, capital do Nepal, padecem com a poluição. Nestes dois países quase não vi o azul do céu. A poluição formava uma densa camada branca que impedia sua visão. Tinha a fantasia que ao chegar em Kathmandu veria uma cidade cercada de montanhas. Qual não foi minha surpresa quando vi em torno de 10% da população usando máscaras. Perguntei a razão de seu uso e me disseram: a poluição dos carros. Não temos indústrias no Nepal. A frota de carros e motos era muito velha. Só dois dias depois meus olhos, já mais familiarizados, enxergaram além da densa camada de poluição, a sombra das montanhas. No que pese ser a água uma das riquezas do Nepal falta água para a população, sendo as condições de higiene muito precárias.

Dois aspectos foram marcantes na minha ida ao Nepal:

1) Cremação pública às margens do rio Bagmati, no templo hindu Pashupatinath, Patrimônio da Humanidade. Foi uma experiência impactante. A cremação às margens do rio quase seco, em meio a familiares dos mortos, turistas, vacas, macacos, nativos, figuras exóticas tidas como santos, configurando algo muito surreal ao olhar de surpresa e perplexidade de muitos turistas. Foi uma experiência muito forte.

2) A existência de deusas vivas, meninas que logo após o nascimento são escolhidas como deusas, protetoras do mal e doadoras de boa sorte, encarnação de Kali, a deusa da energia. Elas não frequentam escolas e são consideradas muito especiais para andar, são transportadas em carros, tronos e braços de outras pessoas. Deixam de ser consideradas deusas quando menstruam e passam a viver como pessoas comuns. Essas deusas ficam recolhidas em palácios sob a guarda de poucas pessoas e só aparecem em público algumas vezes ao ano, em determinados festivais e celebrações. Muitas carregam para sempre no corpo as sequelas das limitações físicas que lhes foram impostas.

Em Kathmandu fiz um passeio aéreo pela Cordilheira do Himalaia, podendo apreciar toda a imponência do Everest. Lamentei não ter visitado vilarejos mais próximos das montanhas, para apreciar a natureza mais de perto.

É imperdível tanto em Kathmandu como em duas cidades vizinhas, Patan e Bhaktapur, uma visita às Durbar Square, praças magníficas em sua arquitetura, onde no passado monarcas foram coroados.

Imagem: Acervo de Maria Auxiliadora

Considerações finais

A viagem a estes dois países propiciou-me um contato intenso com as diferenças culturais. Em algumas situações fui tocada visceralmente. Os textos de Freud: “Mal Estar na Civilização”, “Totem e Tabu” e “Futuro de uma Ilusão”, dentre outros, me vieram à mente, assim como sua colocação sobre a religião como expressão de uma neurose coletiva. Estaria a íntima associação entre religião e política, tão presente na Índia, impedindo seu desenvolvimento? A resistência à mudança de valores culturais seria uma prova de resiliência de um povo ou expressão de rigidez? Apesar das invasões e do domínio inglês por cerca de 200 anos, os indianos mantiveram sua crenças religiosas pautadas, sobretudo na reencarnação. Segundo os indianos, o domínio inglês na Índia introduziu uma nova língua, mas não interferiu em suas crenças e valores.

Lembrei também de Bion criança, embalado, na minha fantasia, por mantras e cantos suaves e alegres que ouvi em alguns lugares sagrados e envolvido pelo doce aroma das flores de jasmim que algumas vezes me foram oferecidas como colares.

Ao viajar para um lugar desconhecido, tenho como hábito não ler antes sobre o local, o que traz vantagens e desvantagens, pois após uma viagem, às vezes lamento ter perdido algo por não ter consultado previamente o Guia Michelin ou o Trip Advisor. De outro lado, por não ir “carregada de memória”, além das inevitáveis, fico mais livre para o novo/desconhecido. Viajei sabendo que ia entrar em contato com uma cultura muito diferente da nossa e que, certamente, sofreria com o imenso contraste entre riqueza e miséria. Durante a viagem pude aprofundar reflexões e indagações sobre muitas questões já anteriormente presentes: a finitude, as desigualdades sociais, nossa desumanidade, o ritmo de vida que nos impomos ou que nos é imposto, a dialética ter e ser, a simplicidade, a felicidade, a religiosidade, a espiritualidade. Enfim, voltei mais rica. Apesar de muito estimulada visualmente, não fiquei ofuscada pelos estímulos sensoriais. Pude pensar. Só me tocara de forma semelhante quando estive na Patagônia e entrei em contato com sua exuberante e grandiosa natureza.