AI Generated, Man, Nature, Human (royalty-free stock illustra on)

René Descartes, filósofo francês que viveu no século XVII, em seu famoso Cogito, ergo sum encontra na capacidade para pensar uma certeza fundamental para a própria existência. Mas o desenvolvimento da inteligência artificial introduz uma provocação: se pensar é a prova da existência, o que acontece quando uma máquina parece pensar? Ou pior, parece sentir e se emocionar? E ainda, quando a máquina se propõe a atividades psicoterapêuticas?

A inteligência artificial consegue produzir raciocínios, resolver problemas complexos, elaborar hipóteses e construir narrativas. Tudo isso numa velocidade estonteante. Entretanto, essas capacidades não demonstram, por si mesmas, que ela possua consciência fenomenológica ou experiência subjetiva. Não existe, atualmente, consenso cientifico sobre a possibilidade de alguma forma de mente artificial, tampouco qualquer teste que permita demonstrá-la ou mesmo excluí-la com segurança.

A psicanálise descobriu que realidade humana não é simplesmente encontrada, mas continuamente constituída pela capacidade de sonhar da pessoa (o que Bion chamou de “função α”). Isso nos oferece um contraponto interessante à questão da inteligência artificial.

A IA processa informações e produz representações; o ser humano, por sua vez, transforma experiências emocionais em uma realidade psíquica que participa de sua própria constituição: somos o que conseguimos perceber psiquicamente. Não se trata apenas de pensar sobre a experiência sendo vivida, trata-se de vir a ser transformado pela experiência que nossa função alfa consegue (ou não) “sonhar”.

A inteligência artificial pode até descrever o sofrimento, reconhecer padrões linguísticos associados à angústia e produzir interpretações sofisticadas, que são, muitas vezes, pertinentes e mesmo quase ‘carinhosas’. Entretanto, isso não significa que ela experimente a angústia, a dor, a perturbação, que uma pessoa em sofrimento psíquico experimenta; nem que tenha de metabolizar emocionalmente aquilo que encontra. A IA não sente dor, nem sente prazer, portanto, não sonha e não é capaz de “rêverie”.

O sofrimento humano, ao contrário, pode desorganizar nossa capacidade de pensar; podemos perder temporariamente a capacidade de sonhar, podemos viver experiências que ainda não conseguimos representar. E precisamos, muitas vezes, da colaboração de uma outra mente para nos ajudar a transformar aquilo que não conseguimos elaborar sozinhos. É precisamente nesse ponto que encontramos uma das maiores especificidades da experiência psicanalítica e, principalmente, das relações humanas: somos feitos de vínculos emocionais, de relações afetivas, daquilo que nossa mente consegue sonhar. Essa é nossa maior dádiva e maior encrenca…

Topas fazer análise com uma IA?

Venha conversar conosco no próximo dia 10 de novembro no “Terças na Sociedade”, creio que teremos uma conversa fértil!

Quero aprender com você, estou cheio de dúvidas!

Paulo de Moraes M. Ribeiro

Membro Efetivo da SBPSP e Membro Efetivo com Funções Didáticas da SBPRP