No último sábado, dia 16 de março, o Cinema e Psicanálise de Franca realizou a primeira sessão de 2019. Para inaugurar esta nova proposta de duetos, Josiane Barbosa Oliveira – membro associado da SBPRP – e Eneida Gomes Nalini de Oliveira – doutora em linguística, professora de inglês e atriz – comentaram o filme “Clube da Luta”.

Leia abaixo o comentário de Josiane sobre o filme:

Imagine que você possa percorrer um labirinto para conhecer a dor e desvendar seus segredos. Corredores de alterados matizes, longos e estreitos, espetadiços e escorregadios, pulsados e contínuos. Prossiga por solidões diversas, insônias nomeadas, desejos nômades. Angústias multiplicadas internas e externas e eis que a dor olha dentro de seus olhos e esbraveja: “Vai encarar?”

O enfrentamento da dor é uma escolha? A negação da dor é um manifesto de força? Priscila Roth, psicanalista britânica, comentando sensações frente aos relatos de dor indica a experiência como “perturbadora, desconexa, estranha, desconfortável de ouvir, tanto no conteúdo quanto no tom emocional”. O humano coloca-se frente à dor com medo e curiosidade ao mesmo tempo.

Rememorei um episódio de exame pelo qual passei. O médico respeitoso e hábil anunciava seus passos e por fim finalizava: “picando”. Só assim adentrava meu corpo com a agulha. Pedia permissão, esperava a minha prontidão, reconhecia a medida invasiva. O que dizer da dor que vem desavisada, rápida, cortante, esmurrante, estapeante? .

O filme “Clube da Luta” abre as sessões do Cinema & Psicanálise de Franca deste 1º semestre de 2019. Obra de David Fincher, exibido em 1999, baseia-se no livro de Chuck Palahniuck e tem como atores Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter. É um filme que aborda a dor, a busca frenética das raízes desse acontecimento. É psíquica? É social?

“Clube da Luta” chegou à categoria “Cult” moderno e merece ser revisitado para atualizar as questões pré-internet que hoje só se acentuaram, como a excessiva exposição, os factóides, os “mobs”.

Narra o contato de um homem consigo, na difícil tarefa de dar sentido à própria vida. Nortan, o protagonista, procura expressar seus sentimentos participando de grupos de auto-ajuda, observando a “dor dos outros”. Vê sua rotina transformada ao começar a lutar fisicamente com um amigo novo e misterioso. Suas lutas atraem espectadores que passam também a lutar e a exibir prazer intenso nas descargas de violência. Formam um clube de luta clandestino e amador. A trama evolui de forma eletrizante, instigando as tentativas de compreender o todo e as partes, os motivos, a dinâmica de quebra-cabeças.

No clube são instaladas regras que vão sendo reveladas durante o evento.

1- Você não fala sobre o clube da luta- estabelecendo um espaço de cumplicidade e sigilo.

2- Você não fala sobre o clube da luta- reiterando a primeira regra, reforçando-a, marcando o segredo como condição de existência.

3- Quando alguém diz “pare” ou fica desacordado, mesmo que seja fingindo, a luta acaba- determinando a área de conflito. Há um marcador para o quanto cada um aguenta de dor.

4- Apenas duas pessoas por luta- restringindo o confronto à paridade.

5- Uma luta por vez – garantindo a empatia do grupo e a possibilidade de descarga de todos a cada confronto.

6- Sem camisa e sem sapatos- reforçando o quanto cada um só conta com os seus próprios instrumentos para seus enfrentamentos.

7- As lutas duram o tempo que tiverem que durar- o exercício da resistência, a elasticidade como forma de auto percepção.

Qual tipo de “clube de luta” estamos aptos a frequentar?