Resumo dos comentários ao filme Cinema Paradiso, realizados no C&P de Ribeirão Preto em 2011 e C&P de Franca em 2012

por Ana Regina Morandini Caldeira,

Psicóloga pela USP – Psicanalista pela SBPRP

O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente – Mario Quintana

Cinema Paradiso é um premiadíssimo filme italiano, tendo sido vencedor do Oscar; do Globo de Ouro; do Grande Prêmio do Júri em Cannes; dentre outros mais. É grandioso, não somente por se tratar de uma significativa homenagem ao cinema, mas por sua sensibilidade ao retratar a estória de uma enorme amizade entre um menino e um senhor, na cabine de projeções de cinema de uma cidadezinha da Sicília. Ambos, encantados diante do poder da miragem, das imagens e cores, que a atmosfera do cinema pode trazer.

Seu diretor, Giuseppe Tornatore, revela-se com a simplicidade e comoção de um contador de histórias. Fala sobre os sonhos da infância, os amores da adolescência, os questionamentos da maturidade, a transitoriedade da vida, regados a emoções comuns a todos nós. Faz-nos pensar em como as parcerias construtivas constituem-nos enquanto sujeito, preenchendo os vazios existenciais e a solidão.

Cinema Paradiso é sonhante, e nos transporta às mais variadas emoções, faz-nos rir e chorar, e encanta-nos por sua proximidade à vida.

Estamos diante de um filme que tece uma história sobre a natureza da existência humana, construindo reflexões sobre a amizade, o amor, a construção da identidade, o passar do tempo, as memórias e a morte.

Incluo o cinema dentro do universo das obras de arte, que em geral são descomprometidas com o conhecido e o racional, e existem a partir da própria intuição criadora. O cinema tem o poder de nos transportar para nossas narrativas internas, através de seu enredo e da sua música. Quando a gente vê um filme, nos tornamos as princesas, os vilões, os conquistadores, mártires, loucos, sujeitos de fé e sujeitos à beira do abismo. Somos, ao mesmo tempo, bandidos e mocinhos, enquanto representantes de nossa verdade interna, que nunca é única. Na grande tela, somos os protagonistas de nós mesmos. Vemos e nos identificamos com todos os personagens, na medida em que eles falam sobre a multidimensionalidade de nossa mente.

Diante de um belo filme, somos nós e não somos nós que estamos ali, ao mesmo tempo. Como se fosse um fenômeno transicional. Nem real, nem irreal, mas em trânsito e fronteiriço diante desses dois contextos.

Onde se dá tudo isso, ou que sala seria esta, em que acontece a grande aventura das emoções? Apesar da resposta parecer óbvia, de que me refiro à sala de projeções do cinema, penso que estamos também falando sobre uma sala de análise.

Acredito que numa sala de análise, tantos e tantos “filmes” são projetados e vivenciados. Apresentam-se sentimentos, que permeiam os espaços daquilo que há de mais primitivo e não desenvolvido, ao que há de mais sublime e requintado, dentro de cada um de nós. Seria então, um espaço democrático, tanto quanto é o cinema. Um lugar onde todos os diferentes aspectos mentais encontram uma poltrona, em que possam se assentar e se apresentar.

Nesse contexto de intimidade e verdade, os sonhos que não foram possíveis de serem sonhados, ou que foram interrompidos, podem se constituir e adquirir existência. E até mesmo alguns pesadelos; por que não?

Clarice Lispector, em “Um sopro de vida”, revela que “a vida real entra em nós em câmara lenta, inclusive o raciocínio o mais vigoroso – é sonho”.

Essa qualidade a que me refiro, de parceria sonhante e criativa, é também aquela pertencente a Totó (Salvatore Cascio – menino) e Alfredo (Philip Noiret).

Sonhar (processo que ocorre tanto durante o sono, quanto na vigília) nos faz humanos. Torna possível viver o impensável. Sonhar nossa própria experiência é passar a ter posse dela, no processo de pensá-la e senti-la. O próprio diretor, Tornatore, fala que vivencia seus filmes como se fossem sonhos. Ele conta suas histórias e, provavelmente, a partir do público interlocutor, as elabora também.

Assim, geramos pensamentos oníricos a partir de nossa experiência vivida, para podermos digeri-la e elaborá-la. Mas essa tarefa não é simples e, muitas vezes, solicita uma parceria saudável para que possa acontecer. Pede uma dupla que possa sonhar junto. Alfredo e Totó sonhavam, juntos, suas experiências pessoais.

Essa ideia de parcerias construtivas e reorganizadoras, permeia todo o filme. Cinema Paradiso nos conta sobre o quanto necessitamos e dependemos dos vínculos, como pontes que possam nos conduzir ao outro, e trazê-lo para perto também. Porque a alma humana não se constitui sem a intimidade, sem a cumplicidade. E é justamente nessa área dos encontros, em que a vida mental pode ser gerada.

É a amizade, então, a estrela que mais brilha neste filme. Uma história sobre uma criança e um adulto, em que um salva o outro várias vezes ao longo do enredo, não somente em acidentes objetivos como aquele incêndio que ocorre na sala de projeções, como também nos acidentes subjetivos, que a vida propõe.

Montaigne, em seus “Ensaios”, diz que “a amizade cresce com o desejo que dela temos […], porque é de essência espiritual e a sua prática apura a alma”.

Há também um paralelo com uma relação entre pai e filho. Vocês percebem como um é pai do outro, várias vezes?

Vale também ressaltar a relação que Totó tinha com a mãe durante sua infância, que apesar de afetuosa, constantemente o repreendia, como que temerosa de não conseguir levar adiante a educação do filho na ausência do pai. Essa mulher me fez pensar em Penélope, personagem mitológica, que esperava por seu marido Ulisses. A mitologia grega nos conta que, enquanto ele estava na Guerra de Tróia, por muito tempo, ela foi pedida em casamento por diversos pretendentes. Prometia, assim, escolher um deles, logo que concluísse a peça que estava tecendo. Mas todas as noites, Penélope desfazia o trabalho que havia realizado durante o dia, adiando indefinidamente a decisão que os pretendentes aguardavam com ansiedade.

A mãe de Totó também esperava, sempre. Aguardava esperançosa e iludidamente, o marido voltar vivo da guerra, e depois esperou por 30 anos o retorno do filho. Ela é, claramente, um personagem solitário.

Dentro desse enquadre, Cinema Paradiso, logo em seu início, quando nos apresenta o vaso único com uma planta singular diante da imensidão do mar Mediterrâneo, sugere que além das tantas relações afetivas, também vai contar uma história sobre a ausência. Mas não é o desalento da ausência de companhia, nem da falta de pessoas ao redor. É a solidão que se dá quando não podemos nos deparar com nosso próprio mundo interno. Quando não é possível, compartilharmos conosco, nossas próprias emoções, medos e fantasias. É a solidão de uma alma que não se apresenta ao seu próprio sujeito.

Os grandes poetas sempre contaram com maestria e com maior habilidade que nós, psicanalistas, sobre esse tema tão humano. Drummond, em “Ausência”, disse assim:

Por muito tempo achei que ausência é falta.

E lastimei, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim […]

Saramago, anos depois, em “O ano da Morte de Ricardo Reis”, completa dizendo que:

A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós […]

A partir desse contexto de solidão, acho que agora nós chegamos ao momento da vida adulta de Totó, logo no início do filme, quando distante de seus vínculos e, quem sabe, distante de si mesmo, recebe a notícia da morte de Alfredo. Parece que ele não andava onde ele próprio estava, ou onde batia seu coração. Ele encontra-se dirigindo seu carro, indo em direção a uma quase desconhecida mulher, numa pseudo intimidade.

Totó (adulto) se desenvolveu muito profissionalmente, virou um cineasta famoso, mas se distanciou de sua trajetória. Quando teve a notícia sobre a morte de Alfredo, parece que percebeu que, subjetivamente, nós somos constituídos também a partir de nosso passado e de nossas memórias, como referências de objetos internos que nos preenchem e habitam.

Então, o que fez Totó com sua história?

Num primeiro olhar, nós podemos pensar que ele foi embora para poder crescer e se realizar profissionalmente. Mas eu vou trazer um outro vértice. De que ele partiu da Sicília para Roma, ficando distante de sua terra e de sua família, retraindo-se de sua realidade como que numa tentativa de negá-la.

Seguiu a sugestão de Alfredo: “Vá e não volte mais. Não quero mais ouvir você falar, quero ouvir falar de você”. O que faz-nos pensar, sobre o porquê Alfredo necessitava tanto que Totó se diferenciasse dele, tendo como tarefa pessoal a moldagem do futuro deste, talvez amparado por uma ideia de que os filhos devam ser melhores que os pais. Há, nesse contexto, uma dualidade que revela ao mesmo tempo, tanto a generosidade de Alfredo, quanto seu comportamento aprisionador, na medida em que direciona e dimensiona o futuro do outro.

Mas porque será que Totó foi embora? Foi por ele próprio, ou por Alfredo? Por causa de sua decepção amorosa? Teria então que ser alguém famoso para se sentir a altura de Helena? Ou por uma junção destas coisas todas?

Parece que, no intuito de ignorar sua dor pelo desencontro com Helena, e pelo receio de uma vida rasteira como a de Alfredo, foge sem olhar para traz. As imagens das âncoras enferrujadas, sem mais nenhuma função, fincadas ao chão e não no mar, faz-nos pensar em uma relação com a mediocridade e a falta de sentido. Como que dizendo à Totó para que vá embora para longe daqueles mares, caso contrário, metaforicamente, viraria uma âncora daquelas.

Mas será que Alfredo era, ou tinha uma vida medíocre? Não seria ele um ser humano de tamanha riqueza, capaz de abastecer os sonhos de toda uma comunidade e dar sentido à vida de Totó, a partir de sua parceria e presença viva? De qualquer maneira, Totó faz uma tentativa de negar tanto sua história, quanto o tempo, na medida em que fica por 30 anos longe, como se tudo fosse permanecer ali, imutavelmente. Caindo, distraidamente, em sua sombra e em seus ocos.

Também não lhe foi possível elaborar sua separação com Helena, sendo que nunca pôde esquecer seu grande e único amor. Parece não ter conseguido conceber que uma relação de amor possa ser finita, e passa então, a viver uma ausência infinita. Impede que novos encontros possam se dar, talvez por não ter conseguido viver a finitude do primeiro amor. Tem várias mulheres e, ao mesmo tempo, não tem nenhuma. Melancolicamente, coloca-se sobre à sombra do que ainda desejava ter e viver, sem abrir novas e reais possibilidades de parceria.

Mas quando volta, para o funeral de Alfredo, percebe a passagem do tempo. O que é volátil se apresenta. Vê que as pessoas envelheceram, que o vilarejo mudou. Só o louco da comunidade nega a transitoriedade da vida, não se permitindo transformações, e dizendo ainda que a praça era sua. A finitude tão negada, apresenta-se de forma explícita quando o edifício do cinema é implodido. Nesse momento, penso que Totó pôde olhar tanto para o que viveu, quanto para o que perdeu. Concedendo um acesso a si próprio.

Ao retornar à sua cidadezinha natal, pôde se deparar com a importância de sua história e dos vínculos que existiram em sua vida. Era, naquele momento, um náufrago que identificava sua solidão ao longo destes 30 anos. Solidão esta que é representada pela morte e ausência de seu grande amigo, mas também para muito além, pelo exílio de sua vida.

Este belo filme fala sobre a coragem de nos encontrarmos com fantasmas que deixamos no passado. E foi isso, exatamente, o que ele fez no final de sua trajetória. Foi ao encontro de seus afetos, os quais havia deixado esquecidos há três décadas. Deparou-se com seu mundo encoberto e proibido e, somente a partir daí, pôde fazer enterros e implosões daquilo que lhe era, internamente, velho e empoeirado. E é dessa forma que nos é possível construirmos a condição de reavivar ou ressuscitar aquilo que nos é essencial.

Um momento de enorme emoção se dá quando a mãe de Totó revela à ele seu quarto com todos os objetos preservados e, mais do que isso, restaurados. Espaço de um doce macio de menino. Mostrando que, apesar da tentativa de negação de suas vivências e passado, não eram só fantasmas que estavam ali, mas objetos vivos e constituintes de sua identidade. Ali encontrava-se contida sua trajetória, infância e adolescência. Seus vivos vínculos, representados através das fotos de seu pai e de Alfredo. Uma história que realmente existiu, cujo significado foi constituinte do renomado cineasta que ele se tornou.

Se não nos depararmos com nossos “cômodos abandonados”, frustrações, elementos e emoções resguardadas, não nos ofereceremos chances de reconstrução de nossa história pessoal.

Eu fiquei torcendo para que Totó pudesse se dar, a partir de então, o direito aos encontros, como fazia quando era criança. A possibilidade de poder partir e, melhor ainda, poder voltar. Pois esta é a verdadeira tessitura da vida.

Milton Nascimento, nos canta esse recurso:

Coisa que gosto é poder partir sem ter planos

Melhor ainda é poder voltar quando quero […]

E assim, chegar e partir.

Há um outro momento do filme que é especialmente bonito (como dizia Totó, é belíssimo), em que a projeção passa de um ambiente estrangulado para a amplitude da praça. Alfredo diz “abracadabra” e parece até tocar com as mãos no pozinho do “pirlim-pim-pim”. Amplia a imagem e aumenta o som. O que não podia ser visto e ouvido, torna-se de avolumada existência e presença. Novamente questiono então, se não estaríamos agora também falando de uma sala de análise. Onde ocorre o vislumbre ampliado das áreas férteis de nossa mente, com os seus múltiplos personagens, enredos, e tocante emoção das trilhas sonoras, a compor toda a nossa memória.

O final é deslumbrante. No momento em que a gente se depara com a junção de todos os beijos antes proibidos, agora permitidos, é como se houvesse a permissão ao afeto. Totó, uma vez mais, conta com a ajuda de Alfredo, que lhe presenteia com a integração de todos os recortes de trechos amorosos das películas. Os quais eram mais do que simples fragmentos, consistindo numa unidade que revelava a possibilidade de ligações criativas, sexualizadas e férteis.

Pois assim somos nós, seres vinculares que sempre buscam por parcerias amorosas, e por elos que localizem nossa existência.

Fernando Pessoa já falava sobre o recurso de se ver, ao sentir-se inserido, quando ele diz assim:

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no universo […]

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer.

Porque eu sou do tamanho do que vejo.

E não do tamanho da minha altura.

Quando nos é possível o encontro com as dores e as riquezas pessoais, levando em conta nossa essência, história e cultura, podemos então, nos enxergar inseridos e habitantes de uma aldeia. Nesse momento não estamos mais tão sós, nem somos tão pequenos.