Algumas teorias sobre as quais eu nada conheço dizem que o espaço-tempo pode se dobrar, de modo a encontrarmos com uma versão nossa que pertence a algum dos múltiplos universos alternativos. Acredito que algo análogo a isso aconteceu
comigo num encontro com uma pessoa.
Sua vida é, no formato, parecida com a minha. Ele se sente ao mesmo tempo ameaçado e protegido, assim como eu. Apenas, no caso dele, ou dessa versão paralela minha, a catástrofe já aconteceu. Como diria um amigo meu, chegou o “túnel
no final da luz”.
Mas quando digo “ameaçado e protegido”, não se distraia com as palavras de tom teórico psicanalítico, a ponto de não escutar a melodia da voz que transbordaatravés delas. O que aconteceu com ele? Eu poderia considerar que foi um fato: ele
confiou que o plano daria certo, mas não deu, então, por causa e consequência, ele deprimiu. Sim, posso considerar o fato, mas o que faço com o outro Victor que vejo diante de mim, aquele do multiverso? Como dar sustentação à alucinação de que a
pessoa que meus olhos veem é menos real que aquela que vejo com os olhos da imaginação?
O que me interessa, no momento, é aquilo que ele viu no plano. Ele viu o próprio silêncio? Aquele silêncio que não pôde alcançar o que as palavras estão alcançando só agora? Aquele silêncio que luta por existir?
Os bens materiais explodem como se acontecesse no vácuo, um estrondo visual que não emite som algum. E a voz silenciosa, o corpo silencioso, transitam pelo espaço como se fosse também no vácuo. Ouço essa voz silenciosa como quem escuta a
pulsação do silêncio no meio da música. Os iguais se reconhecem.
Primeiro penso que tenho medo dele se ofender com algo que eu possa dizer. Mas depois acredito que seja, na verdade, um desejo. Um desejo de tocá-lo, pra ver se faz algum barulho. Pés que andam nas nuvens não fazem barulho.
Há o meu silêncio que bate no peito e urra, que demanda por aquilo que merece, pela vida que a vida me deve. Quem pode ousar escutar a pulsação no meio desse silêncio? Desse silêncio branco de pura beleza, sem bordas, sem costuras e
sem vida?